A aposta
(Reese's Wild Wager)
Barbara Joel


Este era o prmio que todos os homens queriam!
       Reese Sinclair ganhou uma aposta em um jogo de pquer... e o prmio no poderia ser melhor: uma mulher! Agora, ela teria de trabalhar na taverna dele durante
duas semanas. E isso ensinaria uma boa lio  esnobe Sydney Taylor.
       Ele estava certo de que nenhuma mulher iria abalar sua convico de que deveria permanecer solteiro, nem mesmo a bela Sydney. At que uma primeira noite de 
amor fez Reese sentir algo que jamais sentira... por mulher nenhuma. E ento ele comeou a pensar no que faria quando o prazo estipulado pela aposta expirasse e 
Sydney fosse embora. Proporia mais um jogo de pquer ou... um casamento?
       
Digitalizao e Reviso: Mikana
Reviso final: Ana Ribeiro
Formatao: Raquel

       

       Querida Leitora,
       Voc sabe como jogar pquer? Se no, aprenda as regras do jogo com este emocionante e divertido romance!
       E no esquea: quanto mais alta a aposta, mais risco e aventura!
       Fernanda Cardoso Editora
       

Copyright (c) 2001 by Barbara Joel
Originalmente publicado em 2001 pela Silhouette Books, 
diviso da Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo 
total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edio  publicada atravs de contrato com a 
Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canad.
Silhouette, Silhouette Desire e colofao so marcas registradas da 
Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra so fictcios.

Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.
Ttulo original: Reese's Wild Wager
Traduo: Ana Carolina Ferreira do Nascimento
Editora e Publisher: Janice Florido
Editora: Fernanda Cardoso
Editora de Arte: Ana Suely Dobn
Paginao: Dany Editora Ltda.

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10 andar 
CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil
Copyright para a lngua portuguesa: 2001 
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Impresso e acabamento: 
DONNELLEY COCHRANE GRFICA E EDITORA BRASIL LTDA.
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     Captulo 1
       
       
       A fumaa de cigarro era visvel no pequeno escritrio da taverna. Quatro irmos estavam sentados ao redor de uma mesa, jogando baralho. Gabe Sinclair, o mais 
velho dos quatro irmos, franziu a testa diante de sua m sorte, enquanto Callan, o segundo por ordem de nascimento, considerava a possibilidade de conseguir outro 
rei e formar um par. Ao lado dele, Lucian, o irmo nmero trs, sorriu ao ver seu par de valetes, e Reese, dono da taverna e o mais novo dos Sinclair, com trinta 
e dois anos de idade, olhou com ar inexpressivo para as suas trs damas.
       Os Sinclair eram homens muito bonitos. Cada um deles, com seus cabelos pretos e rostos viris, haviam despedaado muitos coraes no condado de Bloomfield.
       Alguns diziam que Reese era o recordista. Ele tinha olhos que hipnotizavam as mulheres. Olhos verde-escuros como uma floresta. E o sorriso... Tambm no se 
podiam esquecer o metro e oitenta e oito de altura e o corpo musculoso que lhe valera trs vezes consecutivas o ttulo honorrio de "Bumbum Mais Gostoso Dentro de 
Uma Cala Jeans", concedido pelas mulheres do condado de Bloomfield. Reese deixava o certificado de moldura prateada pendurado na parede ao lado de uma placa que 
tinha recebido da Associao dos Comerciantes de Bloomfield: "O Melhor Restaurante".
       Como a vida  bela, Reese pensou ao pr um cigarro na boca. Trs damas, uma aposta de dez dlares sobre a mesa e dois dedos de tequila no copo.
       Mexeu na sua pilha de fichas e jogou duas na mesa. Estava de namoro com a "dona sorte" naquele dia.
       - Aposto mais cinco e digo que esta rodada  minha - declarou, sorrindo. - De novo.
       Lucian olhou para suas prprias cartas e pousou o cigarro no cinzeiro.
       - Feche essa boca - disse. - Pago os seus cinco e dobro a aposta.
       - Estou fora - Gabe falou, baixando as cartas e levantando-se da mesa. - Vo em frente, crianas. Kevin e eu vamos pescar, amanh cedo, e j  tarde.
       - Tambm estou fora - Callan declarou, levantando-se. - Abby est me esperando.
       Reese olhou para o irmo e movimentou a cabea negativamente. Os jogos de sbado  noite estavam ficando cada vez mais curtos e raros, desde que Callan se 
casara com Abby havia seis meses, e Gabe ficara noivo de Melanie, poucas semanas atrs. Quando todos eram livres, aqueles jogos iam at as trs, quatro horas da 
manh.
       Reese estava feliz por seus irmos, mas a reputao de devoo ao celibato dos Sinclair agora repousava em suas mos e nas de Lucian.
       "E essa  uma reputao que tenho orgulho de carregar", Reese pensou.
       - Parece que seremos s eu e voc, mano - comentou, enquanto Gabe e Callan vestiam seus casacos. - Cubro sua aposta... e aposto mais...
       A porta do escritrio abriu-se.
       - Reese Sinclair, isto tem de parar!
       Reese olhou para a mulher entre os batentes da porta. Sydney Taylor. Seus cabelos loiros ondulados estavam soltos e caam sobre os ombros, fazendo um lindo 
contraste com o roupo de banho vermelho que ela vestia. Tinha trazido consigo a fria brisa de novembro e o cheiro das folhas cadas do outono. Carregava nos braos 
o colhe-terrier de Reese. Boomer estava coberto de lama, assim como Syd. Lama em Syd Taylor?
       Um momento Kodak, Reese pensou, referindo-se a uma propaganda de filmes fotogrficos.
       Quis rir, mas o olhar furioso de Syd impediu-o. Ela seria capaz de mat-lo, se ele sorrisse. Todos sabiam que Syd Taylor podia deixar um homem de joelhos 
com um nico olhar. Era linda, mas gostava de mandar e acabara ganhando o apelido de Syd, a rainha dos hunos. Claro que ningum falava aquilo na frente dela, afinal 
era a neta do juiz Randolph Howland. Reese olhou para os irmos. Os trs estavam to chocados quanto ele por verem a impecvel Syd de roupo de banho, coberta de 
lama e com um cachorro no colo. Mas mesmo daquele jeito, ela ainda mantinha um ar de realeza.
       - Bem, se isso a incomoda tanto, Syd, o jogo acabou - Reese declarou.
       Ela estreitou os olhos azuis.
       - Sabe muito bem do que estou falando - replicou. - Seu cachorro estava no meu jardim, de novo!
       Tinha mudado-se recentemente para um apartamento, num prdio que ficava na mesma rua da hospedaria. Havia alugado a rea na frente de seu apartamento trreo 
para abrir um restaurante francs com jardim.
       - Tem certeza de que foi meu cachorro? - Reese indagou inocentemente. - Vi o poodle de Madge Evan passeando perto de seu jardim.
       - Madge  responsvel - Syd retrucou com irritao. - Voc, ao contrrio, no . Esta  a quarta vez, em trs semanas, que pego Boomer em meu jardim. Ele 
arruinou meus amores-perfeitos, meus lrios e meus crisntemos.
       Boomer latiu, e o atestado de sua culpa caiu-lhe da boca: ptalas de flores amarelas. Syd entrou no escritrio e colocou o cachorro em cima da mesa. Cartas 
e fichas voaram para todos os lados, porque Boomer pulou alegremente, ento se remexeu todo, espirrando lama, principalmente em Reese e na camisa branca de Lucian.
       Reese olhou para as damas em suas mos, bufou, baixou as cartas e limpou o rosto. Boomer saltou da mesa, sentou-se aos ps do dono e olhou para ele com grande 
expectativa. Seu focinho estava coberto de lama.
       Reese sabia que Boomer estava arrependido, mas havia algo em Syd que o incomodava. Talvez fosse o ar de superioridade dela. Ele teve vontade de dizer-lhe 
poucas e boas. Olhou para os irmos, querendo um pouco de apoio moral, porm os trs estavam surpresos demais com toda aquela situao. Levantou-se, olhou para Syd 
e pensou em falar que ela estava com lama na testa e nos cabelos, mas reconsiderou.
       - Comprarei as flores que ele estragou - disse.
       Ela cruzou os braos.
       - E o que vai fazer para impedir que seu cachorro estrague meu jardim de novo? - perguntou. - Preciso lembrar que a inaugurao do Le Petit Bistrot  daqui 
a quatro semanas?
       Claro que no. O condado de Bloomfield era pequeno, e dificilmente as pessoas no sabiam da vida dos outros. Desde que Syd voltara da escola de gastronomia 
na Frana, a cidade toda vinha falando do restaurante dela. No s do restaurante, mas tambm das razes pelas quais ela deixara a cidade havia um ano: fora abandonada 
no altar por Bobby WiIliams, professor de Educao Fsica. Bobby recebera uma proposta de trabalho na Universidade de Nova York, s que esquecera de contar a Syd, 
sem falar em sua deciso de no mais se casar, pelo menos com Syd, pois fugira da cidade com Lorna Green, ex-garonete de Reese.
       Ningum tinha visto Bobby e Lorna desde ento. Reese com certeza no sentia saudade de Bobby, pois nunca gostara dele. Mas Lorna fora uma excelente empregada, 
e ele sentia falta dela, principalmente naquele momento, pois estava com uma garonete prestes a tirar licena de maternidade, outra de frias, e uma nova garonete 
que era meiga, mas que no conseguia se lembrar a que horas tinha de aparecer para trabalhar. A taverna vinha passando por dias de caos nas ltimas duas semanas.
       "E agora o furaco Syd surgiu", Reese pensou. "Mas posso cuidar disso."
       Sorriu.
       - Desculpe, Syd - pediu. - No vai acontecer de novo. - Poupe seu charme - ela retrucou, revirando os olhos. - Percebi que isso funciona com a maioria das 
mulheres da cidade, mas no comigo.
       Se fosse qualquer outra mulher, Reese teria adorado aceitar aquele desafio, mas era Syd. Querer desafi-la seria como estar no Titanic. E Reese no queria 
nadar em guas to frias. S que, naquele momento, com os cabelos desalinhados, usando roupo de banho e pantufas, ela estava muito graciosa.
       Assustado com seus pensamentos, Reese fitou-a de novo, viu os ombros rgidos e os lbios cerrados dela. No que estava pensando?! Syd podia ser uma mulher 
atraente, mas, graciosa?
       - Reese Sinclair, est me escutando? - ela sibilou. - No saio daqui sem antes resolvermos isso de uma vez por todas. - Pode bater nele - Callan sugeriu.
       Boomer latiu. Syd engoliu em seco.
       - No sou capaz de agredir um animal - declarou.
       - No estou falando do cachorro. - Callan mostrou-se ofendido por Syd ter pensado aquilo. - Falo de Reese.
       Reese olhou para o irmo. Sabia que Gabe, Callan e Lucian estavam se divertindo com aquela situao. E no podia culp-los. Se fosse o contrrio, ele tambm 
quereria sentar na primeira fila com um saco de pipocas. Mas, se ia ter de discutir com Syd, no desejava ter platia.
       - Vocs no iam embora? - perguntou.
       - Eu no - Lucian respondeu e olhou as cartas em suas mos.
       - No estou com pressa - Gabe falou, tirando o casaco. - Podemos jogar mais umas rodadas.
       - O jogo acabou - Reese declarou. "Assim como o espetculo", pensou.
       Tirou as cartas das mos de Lucian, ajudou Gabe a vestir o casaco, ento guiou seus trs irmos para fora do escritrio e fechou a porta.
       - Pronto - disse, virando-se e encarando Syd. - Onde estvamos?
       - Voc ia me dizer como pretende manter seu cachorro longe do meu quintal e das minhas flores.
       - Oh, certo.
       Reese olhou para o cachorro e caminhou at ficar s costas de Syd. Sentiu o doce perfume dela junto com algo mais que no conseguiu identificar.
       Syd franziu a testa e virou-se para ele. - Ento? - questionou.
       - O qu? Oh, bem, como v, Boomer no gosta de ficar trancado. Desde que o encontrei na estrada e o trouxe para casa, fica deprimido, se o deixo preso.
       Boomer, que tinha ouvido seu nome e parecia ter entendido que era o assunto da conversa, ergueu a cabea e abanou o rabo.
       - Deprimido? - Syd repetiu. - Talvez ele precise de mais ateno do que voc pode dar.
       - Boomer recebe tanta ateno quanto um beb. S no suporta ficar trancado. Precisa de espao para esticar as pernas. - Gabe acabou de comprar uma casa enorme. 
Com certeza tem bastante espao para Boomer esticar as pernas. Ele seria muito feliz, l.
       - No posso fazer isso com meu co! - Reese protestou. - Ele j foi abandonado uma vez, quando era filhote. Se eu o der para meu irmo, ele no compreender. 
Vai pensar que o abandonei.
       Syd afastou-se e olhou Reese com frieza.
       - Como Bobby me abandonou? - indagou. - Deixando-me no altar de uma igreja cheia de convidados?
       "Diabos", ele ralhou consigo mesmo. "No  nada disso." - No, Syd, verdade, eu...
       - Esquea, Sinclair. Acha que pode me convencer com esse seu sorriso e me fazer sentir pena do seu cachorro? Isso no vai acontecer. A vida  muito maior 
do que voc e este bar que voc administra.
       - Ei, isto aqui  uma taverna, no um bar. H uma grande diferena.
       - Talvez voc ache que sou mesquinha, ou que flores destrudas no significam nada, mas sua falta de respeito com minha propriedade no tem cabimento e  
insensata.
       - Ei, sou mais sensato que seu ltimo noivo.  - Se est se referindo a Bobby Williams...
       E Reese estava. No era nem um pouco parecido com Bobby. J tinha irritado Syd bastante por uma noite. Olhou para Boomer e, em seguida, para a mesa, mais 
precisamente para as cartas e as fichas espalhadas.
       - Que tal jogarmos uma partida para acertar as coisas entre ns? - sugeriu.
       - O qu?
       - Um jogo de cartas. Canastra, buraco, talvez vinte-e-um. - Do que est falando?
       - Escolha um jogo para acabarmos com nossas brigas de uma vez por todas. Se voc ganhar, mantenho Boomer trancado dentro de casa, e se eu ganhar...
       Do que Reese estava precisando? De algo que no somente mantivesse a boca de Syd fechada, mas tambm a colocasse em seu devido lugar.
       Abriu um amplo sorriso. Syd nunca aceitaria aquilo que passara por sua mente. Mas ele desejava ver a expresso dela. - Se eu ganhar, voc vem trabalhar na 
taverna por uma semana - props. - S tenho duas garonetes, no momento. Syd no acreditou no que tinha acabado de ouvir.
       - Espera acertar nossa situao com um jogo de cartas? - questionou. - Isso  insano!
       Ele apenas sorriu.
       - Voc no est brincando, no ? - ela murmurou. - Est falando srio.
       - Estou.
       "Agora eu quero ver", Reese comentou consigo mesmo. "Ela perdeu a pose. Vou dar o golpe final."
       - Voc ter de fazer o que eu mandar - disse. - O qu?!
       - No se encha de esperanas, Syd - ele alertou, adorando ver as faces dela corarem. - Estou falando de negcios, mas podemos estender o assunto, se voc 
quiser.
       - Vamos ver se entendi. - Ela prendeu uma mecha de cabelos atrs da orelha. - Se eu ganhar, voc promete cuidar de Boomer e mant-lo longe de minhas flores. 
Se eu perder, terei de trabalhar para voc durante uma semana.
       - So trs horas por dia. Algum to organizada como voc com certeza arranjar trs horas para trabalhar aqui
       Syd riu.
       - Mesmo vindo de Reese Sinclair, essa proposta  a mais absurda que j ouvi - falou.
       Ele sabia que Syd jamais concordaria com sua proposta, porm seria divertido, se concordasse.
       - Se est com medo de perder... - murmurou.
       - Medo? - Ela estreitou os olhos e aproximou-se de Reese. - No estou com medo.
       - Sei. - Ele deu os ombros e revirou os olhos. - Acredito. - Muito bem, Reese Sinclair. - Syd ergueu o queixo. - O que podemos acrescentar a essa proposta 
para que fique mais interessante? Se eu perder, Boomer no apenas ficar livre como um passarinho, como virei trabalhar aqui duas semanas. Se eu ganhar, Boomer ficar 
preso, e voc ir trabalhar para mim durante duas semanas.
       Ele riu.
       - Est brincando, no est? - indagou. - Com medo de perder?
       - , voc est falando srio. - Reese fitou-a com incredulidade. - Quer mesmo seguir em frente?
       - No s quero seguir em frente como honrarei minha palavra, perdendo ou ganhando. E voc?
       - Estou nessa. - Certo.
       - Certo.
       Foram at a mesa e sentaram-se frente a frente. Reese pegou as cartas e embaralhou-as. Fazia muito tempo que no jogava burro ou rouba-monte.
       "Espero lembrar as regras", pensou. - O que vai ser? - perguntou.
       - Pquer?
       Reese quase deixou as cartas carem. - Quer jogar pquer? - indagou.
       - O que achou que jogaramos? Rouba-monte? Meu pai me ensinou a contar usando cartas de baralho, isso quando eu tinha dois anos de idade. Enquanto as meninas 
brincavam com bonecas, eu aprendia a jogar vinte-e-um. - Sorriu e olhou Reese com frieza. - D as cartas, Sinclair. Vou acabar com voc.
       Uma hora, e dez rodadas depois, para o delrio de Syd e preocupao de Reese, a pilha de fichas dela era o dobro da dele.
       "Que maravilha", ela pensou, radiante.
       Cada fileira de fichas vermelhas, brancas e azuis mostrava a vitria dela e a derrota dele. Claro que oficialmente ela no tinha ganhado nada ainda, mas era 
apenas uma questo de tempo, pouco tempo, se Reese se baseasse nas trs ltimas rodadas. Ele estava perdendo. Mais duas ou trs rodadas, e Syd o deixaria na misria.
       Syd ainda no conseguia acreditar que tinha aceitado jogar. Aos vinte e seis anos de idade, gostava de orgulhar-se de ser uma mulher madura, que tinha tudo 
sob controle, principalmente suas emoes. Uma mulher acostumada a usar a lgica e a praticidade para tomar decises.
       Mas Reese a olhara com tamanha arrogncia, que ela simplesmente aceitara o desafio, o que a surpreendera tanto quanto a ele.
       Syd olhou para as cartas que tinha nas mos, ento voltou a ateno para Reese, que, por sua vez, observava as dele. Ela notou uma fina mecha dos cabelos 
pretos cada sobre a testa franzida. Reese distraidamente passou o polegar no queixo, e subitamente o nico rudo na sala era o da unha dele coando a barba cerrada.
       Ela nunca tivera a oportunidade de fitar um homem to atentamente. Achava indelicado ficar encarando uma pessoa, mas naquela situao encarar era uma necessidade, 
afinal estavam jogando pquer. A regra mais importante daquele jogo, que o pai de Syd ensinara quando ela ainda era uma criana, era observar atentamente o oponente. 
Cada movimento, cada piscada, cada contrao tinha de ser notada e analisada. Se o pai lhe ensinara algo, antes de partir, quando Syd tinha doze anos, era que ela 
precisava ser observadora. Se ela o encontrasse, lhe agradeceria por aquele ensinamento. Mas jamais apostaria que um dia o reveria. Ele ligava algumas vezes, mandava 
alguns cartes de aniversrio, mas jamais voltara para ver a filha que deixara, catorze anos atrs.
       Sabendo como a me era uma pessoa de difcil convivncia, Syd entendia o motivo. S no compreendia, e o que no perdoava, era ter sido deixada com a me, 
que despejara toda sua mgoa em cima dela.
       "Mas isso so guas passadas", comentou consigo mesma, suspirando.
       Estava com vinte e seis anos e dentro de poucas semanas abriria o restaurante com que tanto sonhara. O passado ficaria para trs, incluindo a humilhao que 
Bobby e Lorna a haviam feito passar.
       Seria uma nova mulher. Seria a mulher que todos pensavam que era: confiante, segura, equilibrada. Uma mulher que no ligava a mnima para o que os outros 
pensavam ou diziam a seu respeito.
       Tudo o que Syd no era, mas que estava desesperada para ser.
       Ao perceber que tinha tirado a ateno do jogo, enquanto sua mente vagueava, voltou o olhar para Reese. Tinha aprendido que, quando ele levava o dedo ao queixo, 
tinha em mos ao menos um par; quando inclinava a cabea para o lado esquerdo, chegando a tocar a orelha no ombro, era porque provavelmente estava com excelentes 
cartas; quando coava o queixo com o dedo, como fazia naquele momento, ia blefar.
       Continuou a observ-lo, atentamente, por causa o jogo, claro. Nunca havia percebido aquela cicatriz perto do lbio inferior. Notou que os cabelos dele estavam 
compridos, chegando a tocar na gola da camisa, cujas mangas estavam dobradas at os cotovelos, deixando  mostra os antebraos musculosos.
       Reese era sem dvida um homem bonito e atraente. No era o tipo de Syd, claro. Depois de Bobby, ela no mais se envolveria com homens de boa lbia e que tinham 
mais msculos do que crebro. Podia apreciar a indubitvel masculinidade de Reese Sinclair, mas no tinha nenhuma inteno de ser vtima dela, ao contrrio da maioria 
das mulheres da cidade.
       Mas tambm sabia que no era o tipo de Reese. Ele gostava de mulheres fteis, que adoravam rir das piadas dele. Syd vira Heather Wilkings de brao dado com 
Reese, num festival que acontecera na cidade no ms anterior, e Laurie Bombgarden fora com ele a uma festa beneficente, uma semana atrs. Duvidava que os Q.I. de 
Laurie e Heather juntos. chegassem  metade do dela. Mas com quem Reese Sinclair passava o tempo no era da conta de Syd. A nica preocupao dela era arrasar o 
queridinho das mulheres de Bloomfield no pquer.
       Olhou para o certificado de "Bumbum Mais Gostoso Dentro de Uma Cala Jeans" que estava pendurado na parede.
       - Votou em mim, Syd? - Reese indagou. - O qu?
       Ao perceber que tinha sido flagrada olhando para o certificado, ela voltou sua ateno para a mesa. Reese estava observando-a, e o brilho nos olhos dele deixou-a 
tensa.
       Com um amplo sorriso nos lbios, ele gesticulou com a cabea na direo do certificado pendurado na parede.
       - Votou em mim? - perguntou. - Claro que no.
       Mentira. Syd pensara em seu dever cvico de votar, quando vira a propaganda da eleio. A disputa naquele ano ficara entre Lucian, Reese e o xerife, Matt 
Stoker. Fora uma escolha difcil, mas no final, votara em Reese.
       Mas preferia morrer a confessar aquilo.
       - Em quem voc votou? - Reese indagou. Ela ajeitou as cartas nas mos.
       - O que faz voc pensar que votei em algum? - perguntou. - E Syd Taylor perderia a oportunidade de expressar sua opinio? - Ele a fitou com ar de curiosidade. 
- E ento, por que no votou em mim? No acha que eu merecia seu voto? Syd estava ficando com as faces quentes.
       - No sei se voc merecia meu voto. Nunca reparei no seu bumbum.
       Ele pestanejou e fitou-a. - No qu? - indagou. - Eu disse que nunca...
       - Eu sei o que voc disse, s que... Oh! - Reese olhou para a parede, ento de volta para Syd. - Eu estava falando do prmio de melhor restaurante. Voc  
membro do Conselho de Comerciantes, no ? E voc votou no melhor restaurante no condado de Bloomfield, no?
       O prmio que a taverna ganhara! Syd sentiu as faces esquentarem ainda mais. Reese estava falando do prmio de melhor restaurante!
       Ele moveu a cabea negativamente, estalando a lngua num gesto de censura.
       - Syd Taylor, que vergonha! - murmurou. - Onde est com a cabea?
       Ela achava que suas faces iam pegar fogo. - Eu... bem... eu...
       - Nunca vi voc gaguejar e corar, Syd. - Reese sorriu. - Estava pensando no meu...
       - No estava! - Ela olhou para as cartas. - O sol vai nascer daqui a pouco. Podemos dar seqncia ao jogo, ou voc precisa de gelo para refrescar a cabea?
       - Sabe, querida? - ele comeou, pegando um cigarro. - Essa sua boquinha ainda vai lhe trazer problemas. Devia aprender a ser mais bem-humorada e se divertir.
       - Estou me divertindo. - Syd sorriu. - Tenho o dobro de fichas. Faa sua aposta, querido.
       Reese pegou um monte de fichas e sorriu. - Cinco dlares - disse.
       Aquela era a maior aposta que fizera desde que comearam a jogar.
       "Ele est blefando", Syd pensou. "Estava passando o polegar no queixo, h pouco."
       Cobriu a aposta e aumentou-a. Reese inclinou a cabea para o lado esquerdo, encostando a orelha no ombro.
       "Ai, ai, ai", Syd lamentou consigo mesma.
       J no tinha mais certeza de que ele estava blefando. Olhou para suas prprias cartas. Tinha trs valetes e um s. Eram boas cartas.
       Reese passou o polegar no queixo novamente. Syd mordeu o lbio inferior.
       - Vamos nos divertir de verdade - ele falou. - Vamos apostar tudo.
       - Apostar tudo? Est brincando!
       - No estou, no. O vencedor leva tudo.
       Syd sabia que naquele jogo parecer confiante era tudo.
       - Sabe fazer um quiche, Sinclair?  mais complicado do que fritar hambrgueres e abrir latas de cerveja. - Sem pestanejar, empurrou suas fichas para o centro 
da mesa. - Ou, talvez, eu lhe d um uniforme, para voc servir meus clientes. Muitas pessoas pagariam para ver voc de garom.
       - No tantas quanto as que pagariam para ver voc carregando uma bandeja com drinques. Eu mesmo pagaria um salrio de garonete inteiro.
       Os dois olharam-se, sem piscar.
       - Mostre suas cartas, e eu mostrarei as minhas - Reese props.         
       Syd colocou suas cartas na mesa sem nem mesmo olh-las. Reese observou-as, inexpressivo, ento baixou as suas.
       Ela teve a impresso de que seus pulmes ficavam sem ar e seu corao iria parar de bater. Reese ganhara.
       - No abrimos antes das dez, normalmente - Reese informou em tom alegre. - Mas aparea s oito, para o caf da manh de domingo. A Gazeta da Filadlfia publicou 
um artigo referente ao prmio que minha taverna ganhou, ento espero casa cheia.
       Syd levantou-se. Que burrice, aceitar aquela aposta! Agora, trabalharia duas semanas sob a superviso de Reese Sinclair. No conseguia pensar com clareza, 
mas no podia deix-lo ver como se sentia humilhada.
       - Tudo bem - murmurou, respirando fundo e apertando o cinto de seu roupo. - Estarei aqui s oito.
       - Syd... - Reese moveu a cabea negativamente e riu. - No achou que eu estava falando srio, achou? Eu s estava me divertindo.
       Ela ergueu o queixo e lanou-lhe um olhar carregado de frieza, rezando para que ele no percebesse que suas mos tremiam.
       - Essa  uma das diferenas entre ns, Reese. Para voc, tudo no passa de um jogo. Voc no leva nada a srio. Eu estou disposta a honrar minha palavra. 
Disse que estarei aqui s oito, e estarei.
       - Faa o que quiser, Syd. - Ele deu de ombros. - Mas se quiser desistir,  s avisar.
       - Posso agentar qualquer coisa. Quero ver se voc pode me agentar.
       Reese apenas sorriu.
       Syd virou-se e caminhou para a porta, andando com altivez. "Voc passar duas semanas que jamais esquecer, Reese Sinclair", ameaou mentalmente, saindo do 
escritrio.
       

     
     
     Captulo 2
       
       
       Domingo era o nico dia em que Reese permitia-se dormir um pouco mais. Ele se dava por feliz por ter um gerente como Corky, que chegava cedo ao estabelecimento, 
ligava as cafeteiras, acendia as grelhas e os fornos. Sua taverna era famosa no s por causa dos hambrgueres e das pizzas, mas tambm por seus deliciosos cafs 
da manh: panquecas, omeletes, batatas assadas, biscoitos. Reese adorava o cheiro e o barulho do lugar: a comida na grelha, as pessoas rindo, se divertindo, enquanto 
comiam e conversavam. Aquilo o fazia recordar as refeies em sua casa, quando ainda era criana. Com cinco crianas  mesa, quatro deles meninos, tinha-se de gritar 
para ser ouvido. O pai sempre se divertira com a baguna dos filhos, enquanto a me franzia a testa e tentava manter a ordem. Mas, embora ela tentasse ser rgida, 
eles a faziam rir e brincar como eles.
       Reese sentia tanta falta daquilo, quanto dos pais. Doze anos tinham se passado desde o acidente de carro que matara os dois.
       Bocejando, rolou para o outro lado da cama e ajeitou a cabea no travesseiro, para ento olhar para o relgio em cima do criado-mudo ao lado da cama. Oito 
horas. Ele franziu a testa e fechou os olhos, lutando contra os raios solares que batiam na cortina da janela e clareavam o aposento. Toda manh acordava s seis 
horas, mas aos domingos nunca se levantava antes das nove e meia. Ainda tinha uma hora e meia e pretendia aproveitar cada minuto. A casa onde morava ficava atrs 
da taverna. Era uma casinha de tijolos vermelhos, que ele construra aps comprar aquela propriedade abandonada, havia quatro anos. Estava bastante perto de seu 
negcio para resolver qualquer problema que surgisse, porm tambm tinha privacidade e podia ficar sozinho quando queria.
       Era um homem que adorava mulheres. A graa delas, os perfumes exticos, as curvas dos corpos, tudo o fascinava e intrigava. Elas eram complicadas e misteriosas, 
doces e recatadas num minuto, difceis e intrigantes no outro. Um enigma que deixava Reese encantado.
       Felizmente para ele, as mulheres gostavam de sua companhia tanto quanto ele gostava da delas. Entendia bem o jogo para saber que, sendo um homem sem compromisso, 
era o alvo predileto das mulheres solteiras. Mas era bem honesto com todas aquelas que namorava: no queria casar. Mesmo assim, elas insistiam em parar em frente 
 vitrina de uma joalheria ou em lev-lo para assistir filmes que mostravam cenas de casamento.
       Mas Reese era feliz do jeito que estava vivendo a vida. Adorava seu negcio e sua liberdade. Ningum lhe dizia o que fazer ou deixar de fazer. No tinha de 
dar satisfaes a ningum. Nada de complicaes ou problemas.
       Afundou a cabea no travesseiro e praguejou. Exceto Syd Taylor.
       Diabos, ele pensou.
       Syd era um grande problema.
       Reese no esperava que ela o levasse a srio quando propusera aquela aposta, e muito menos ainda que ela soubesse jogar pquer. Mas, se havia algo previsvel 
em Syd era o fato de ela ser imprevisvel. Ele sabia que no devia t-la desafiado daquele jeito, mas, j que desafiara, e ela se recusara a voltar atrs, precisavam 
seguir em frente. Afinal de contas, um homem tinha seu orgulho, e Syd mexera com o seu.
       Conhecendo-a, como conhecia, achou que ela j devia estar na cozinha com Corky, dizendo a ele o que fazer. Reese, porm, sabia que seu gerente saberia lidar 
com ela. Corky trabalhara vinte e cinco anos em restaurantes nova-iorquinos, antes de se aposentar e procurar paz e sossego em Bloomfield. Apresentara-se para ocupar 
a vaga de chefe de cozinha uma semana antes de a taverna abrir as portas ao pblico. Nos ltimos quatro anos, vinha sendo mais um amigo do que um funcionrio de 
Reese.
       Mas Corky tinha um jeito todo peculiar na cozinha. Tinha seu prprio jeito de fazer as coisas. No gostaria de ver Syd mexendo em seus potes e panelas. Reese 
imaginava-a l, com o queixo erguido para Corky, enquanto dizia que ele quebrava os ovos ou descascava as batatas do jeito errado.
       Reese conhecia Syd fazia um bom tempo, quase a vida toda, porm nunca notara como os lbios dela eram perfeitos, at a noite anterior. Lbios carnudos e rosados. 
Ela talvez no soubesse que possua lbios to tentadores, mas cada vez que recebia cartas ruins, mordia o lbio inferior, um trejeito sedutor, que mais de uma vez 
distrara Reese.
       Nunca a tinha visto com os cabelos to desalinhados, ou suja de lama, ou de roupo, o que achara estranhamente sexy. Tanto, que ficara curioso para saber 
o que ela estava usando por baixo dele.
       Reese bufou. No acreditava que estava pensando naquilo. Seus irmos dariam risada, se soubessem dos seus pensamentos a respeito de Syd. Decidiu que precisava 
namorar mais. No tivera muito tempo para companhias femininas nas ltimas semanas., At Syd estava sendo considerada uma boa companhia, o que era ridculo. Syd 
Taylor no chegava nem perto do tipo de mulher por quem ele se interessava. Ela era muito chata, muito mandona, muito...
       - Vai dormir o dia todo, Reese Sinclair, ou podemos comear? - O qu?!
       Reese abriu os olhos e viu Syd de braos cruzados entre os batentes da porta de seu quarto, com um sorriso naqueles deliciosos lbios com os quais ele estivera 
sonhando e um brilho intenso nos olhos azuis.
       Pensou em repreend-la asperamente. Estreitou os olhos e sentou-se na cama. Aquela era a Syd que ele conhecia, vestindo uma cala de brim preta e blusa de 
gola alta azul-clara, que combinava com os olhos dela e com os cabelos loiros presos num coque.
       Enquanto ele estava nu, embaixo do lenol. - No sabe bater numa porta? - ralhou.
       - Eu bati. Duas vezes. Corky disse para eu entrar, se voc no respondesse.
       "Vou estrangular Corky depois que estrangular Syd", Reese pensou.
       - Este  o meu quarto, e no gostos de invases - disse. - Quer ser mais especfica sobre o que devemos comear?- Minhas tarefas, claro. A que mais eu poderia 
me referir? Ele ajeitou-se sob o lenol e aconchegou a cabea no travesseiro.
       - Eu durmo at mais tarde, aos domingos - informou. - Corky lhe dir quais so suas tarefas.
       - Nada disso, Reese. Nossa aposta estabeleceu que eu ficaria sob sua superviso.
       - Bem, Syd, j que estou em minha cama, venha c, ficar sob minha superviso. Que tal?
       - Nossa! So palavras doces como essas que enchem o corao de uma mulher.
       - Se essa mulher tiver corao.
       Syd riu. Reese viu-a entrar no quarto e olhar em volta com grande curiosidade. Primeiro, ela observou um trofu de beisebol, que ele ganhara quando fizera 
parte do time, na faculdade, ento se aproximou da cmoda e olhou atentamente um porta-retrato com a fotografia da irm dele, Carla, e o marido, Ian, no dia do casamento 
deles. Ento, voltou a ateno para outro porta-retrato com a foto de Callan e sua esposa Abby, tambm no dia do casamento.
       Seguiu em frente, sem disfarar a curiosidade, enquanto inspecionava o aposento.
       - As turns s comeam depois das dez - Reese declarou. - Pode adquirir os ingressos na taverna.
       Syd sorriu.
       - Desculpe-me - pediu. -  que  to irresistvel, estar no quarto do lendrio Reese Sinclair. Eu esperava encontrar alguns corpos femininos loucos por prazeres 
carnais.
       - A empregada j limpou tudo de manh. Mas deve haver umas duas mulheres no armrio.
       Syd andava na direo do armrio, quando parou subitamente em frente a uma estante.
       - Livros! - exclamou. - Voc tem livros! Grisham, King, Follet... Oh! Dickens e Shakespeare tambm. Estavam aqui, quando voc comprou a propriedade?
       O sarcasmo na voz dela e o sorriso nos lbios tentadores irritaram Reese. J era bastante ruim Syd entrar em seu quarto, e agora ela estava insultando-o intelectualmente. 
Ele havia lido todos aqueles livros e tambm tinha um exemplar de O Grande Gatsby, de Fitzgerald. Sua ltima aquisio fora Os Trs Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. 
Tinha custado caro, mas valera a pena.
       - , minhas revistas em quadrinhos no ocupam muito espao, e eu precisava pr algo nas prateleiras - respondeu. Sentou-se na cama e espreguiou-se. Syd olhou 
para o abdome bem definido dele, arregalou os olhos e engoliu em seco. Reese adorou aquela reao.
       "Agora ela vai sair correndo daqui", comentou consigo mesmo. - Reese, que coisa linda! - Syd exclamou.
       "Nossa!" ele pensou, sentindo que enrubescia, o que era um absurdo.
       Corar por causa do elogio de uma mulher? Mesmo sendo Syd?
       J ouvira muitos elogios, mas nunca uma mulher fora to direta.
       -  Lus XV, no ? - ela indagou, parando ao p da cama e tocando uma das colunas que sustentavam o dossel. - .
       Syd estava obviamente encantada com a cama. Reese no sabia dizer se estava aliviado ou preocupado. Sentiu os lbios secarem.
       ? Os entalhes na madeira so incrveis - ela comentou. - Foi restaurada, ou ainda  a original?
       Ele olhou para as mos delicadas e arrepiou-se. O que ela havia perguntado? Se a cama tinha sido restaurada? Ele no fazia a menor idia. Tinha comprado a 
cama no ms anterior, num leilo pblico em Witherspoon, depois que Carla o convencera de que aquele mvel era perfeito para o quarto dele. Syd era a primeira mulher 
que entrava em seu quarto desde ento, e se aquele era o efeito que a cama causaria nas mulheres, ele devia agradecer  irm.
       Mas, de alguma maneira, sabia que as mulheres a quem convidava para conhecer seu quarto, e que, de acordo com as fofoqueiras de planto no eram poucas, nem 
perceberiam os entalhes da cama. Muito menos veriam os livros na estante.
       Syd ajoelhou-se para ver os detalhes no p da cama, escorregando a mo pela coluna, subindo e descendo, o que deixou Reese excitado.
       "Mas que coisa ridcula!", ele ralhou consigo mesmo. "Syd me deixando excitado!"
       - Hei Syd; agora que somos bons amigos, talvez voc queira que eu saia para poder ficar sozinha com Lus XV.
       Ela ergueu a cabea e pareceu tomar conscincia de que sua inspeo estava sendo muito ntima. Arregalou os olhos azuis por uma frao de segundo, ento se 
levantou e sorriu.
       - Ficou triste por que fiquei mais interessada em sua cama do que em voc? - indagou, inclinando a cabea para um lado e tocando o queixo com o dedo indicador. 
- No leve para o lado pessoal, mas voc no  o meu tipo.
       "No sou o tipo dela?", Reese pensou.
       Achava Syd to cheia de pose, que no conseguia resistir a vontade de irrit-la. Ergueu as sobrancelhas de modo provocante e sorriu.
       - Tem certeza? - indagou. - Se voc relaxar s um pouquinho, aposto que posso ser o seu tipo, se  que voc me entende.
       - Sem chance, Reese Sinclair. Mas obrigada pela oferta.  muita generosidade sua. - Syd virou e caminhou em direo  porta. - A propsito, tenho umas boas 
idias para melhorar a eficincia de sua cozinha. No tomar mais do que dois dias, e depois falaremos sobre desenvolver um novo cardpio. Voc pode ter mais variedade.
       Saiu, deixando a porta entreaberta. Reese franziu a testa. O que ela estava querendo dizer com "desenvolver um novo cardpio"? Ele j tinha um magnfico cardpio, 
com grande variedade. Para que mudar? Alm do que, era para Syd estar obedecendo suas ordens, no tentando desenvolver um novo cardpio ou melhorar a eficincia 
da cozinha da taverna.
       Oh, no! A cozinha! Se ela comeasse a remexer nas coisas, Corky ficaria furioso. Reese tinha de ir para a taverna, antes que Syd causasse algum problema 
ou sangue fosse derramado, embora o sangue derramado provavelmente seria o dele!
       E ele merecia ser castigado por Corky, porque fora um idiota, fazendo aquela aposta ridcula.
       Aposta, Syd, os olhos azuis admirando a cama, as mos delicadas deslizando pela coluna...
       "Inferno!", praguejou consigo mesmo. "Aposto que ela fez de propsito."
       Recusava-se a permitir que Syd Taylor se divertisse  sua custa e dominasse seus pensamentos, levando-o a tecer fantasias quentes. No estava interessado 
em Syd e tinha certeza de que Syd no estava interessada nele.
       Riu diante daquela remota possibilidade de ter um relacionamento com Syd. Naquele momento, Boomer entrou no quarto latindo e pulou na cama, aconchegando-se 
contra seu corpo.
       - Obrigado, amigo - Reese falou, afagando uma orelha do cachorro. -  culpa sua, o fato de Syd, a rainha dos hunos, estar me enlouquecendo.
       Boomer abanou a cauda e lambeu-lhe o rosto.
       Reese riu e levantou-se da cama. Se havia uma coisa de que tinha certeza, era que as duas prximas semanas seriam muito interessantes.
       A guerra havia sido declarada, e ele no tinha dvidas quanto quem a venceria.
       Saindo da casa, Syd parou no pequeno alpendre. As rosas do jardim perfumavam o ar da manh. Um caminho ladeado por pedras brancas dava acesso aos fundos da 
taverna. Mais adiante, no outro lado do caminho, havia mais canteiros de flores variadas e dois bancos de concreto.
       Ela no fazia a menor idia de que atrs da taverna de Reese havia tanta beleza. Mas, tambm, nunca estivera l, muito menos no quarto dele.
       E entrar l deixara-a arrepiada.
       Fechou os olhos e respirou fundo, tentando acalmar a sbita agitao ao recordar o que vira. Reese, mal coberto pelo lenol, mostrando o peito e os braos 
musculosos, era o retrato da masculinidade. Sexy demais. Peito e ombros largos, abdome firme, muito msculo e zero de gordura.
       Tinha certeza de que Reese estava nu. De repente, imaginou como seria estar nos braos fortes, embaixo daquele lenol, aconchegada contra o corpo viril.
       Ficara perturbada, olhando-o, e disfarara, admirando a cama. Era um belo mvel, que ela vira no leilo e pelo qual se interessara, mas s adquirira um aparador 
francs antigo, que pretendia colocar na entrada de seu restaurante. Fora uma surpresa ver a cama no quarto de Reese. Nunca o imaginara capaz de admirar uma pea 
antiga.
       Mas, por que estava pensando tanto em Reese? A ltima coisa que ele precisava era de outra admiradora. E a ltima coisa que ela precisava era sentir-se atrada 
por um homem imaturo, que s pensava em sexo.
       Endireitou os ombros e caminhou na direo da taverna, determinada a no apenas honrar sua palavra, j que perdera a aposta, como tambm livrar-se daqueles 
pensamentos sensuais sobre Reese Sinclair.
       No passara nove meses na escola de gastronomia em vo. Sabia o que podia tornar um restaurante melhor. A taverna de Reese era um estabelecimento tpico da 
Inglaterra do sculo dezoito: mveis em madeira escura e uma lareira de pedras. Um ambiente aconchegante, e a comida era muito boa. Syd adorava os hambrgueres e 
as batatas fritas. Mas isso no significava que no havia reas que podiam ser melhoradas.
       Duvido que Reese aceite mudar alguma coisa, mas o que me impede de compartilhar minhas idias?, perguntou-se, entrando na taverna pela porta dos fundos.
       

     
     Captulo 3
       
       
       - Quem foi quem ps toalhas nessas mesas?
       Com os punhos cerrados apoiados na cintura, Reese parou no centro do salo da taverna e olhou ao redor. Toalhas de brancas de linho cobriam as mesas de carvalho. 
No centro de cada mesa, viam-se pequenos vasos de cristal com rosas. Reese s usava aquelas toalhas e os vasos de cristal em algumas festas particulares.
       - Syd!
       "Deixei-a muito tempo sozinha", ele pensou. "Diabos!" Tinha -tomado banho em tempo recorde, escolhido uma camisa branca, uma cala jeans e botas de couro 
pretas, ento correra para a taverna, porm no fora rpido o bastante para evitar que Syd entrasse em ao.         
       "Toalhas de mesa e flores", comentou consigo mesmo. "Pelo amor de Deus!"
       - Syd! - gritou, indo para a cozinha. - Onde...
       Estava entrando na cozinha, e Syd estava saindo. Ele acabou levando com a porta de vaivm n nariz. Sentiu dor intensa, chegou a ver estrelas, praguejando 
furiosamente
       - Reese Sinclair! Que palavreado  esse? - Syd repreendeu, movimentando a cabea negativamente ao passar por Reese com uma pequena lousa nas mos. - Voc 
sempre  mal-humorado desse jeito, de manh?
       - Mal-humorado? - Segurando o nariz, ele a seguiu at a porta de entrada do estabelecimento. - Voc ainda no viu o que  mau humor. - Sua voz soou nasalada. 
- Mas eu lhe garanto, Syd, que minha pacincia est se esgotando.
       Ela riu, enquanto pendurava a lousa na parede, no lado de fora.
       - Talvez voc devesse dormir um pouco mais - disse. - No deve ficar perto das pessoas, do jeito que est.
       - Eu estava dormindo at voc aparecer no meu quarto. E o que quer dizer com "no poder ficar perto das pessoas, do jeito que estou"? - Reese olhou para a 
mo que havia levado ao nariz, para ver se estava sangrando. Por sorte, no estava, mas ele continuou a pressionar o nariz. -  voc que  esnobe, e sou eu que no 
devo ficar perto das pessoas?
       - Ai! Para que tanta agitao, logo cedo? - Syd virou-se e fitou-o. - E por que est segurando seu nariz desse jeito? - Por causa das toalhas de mesa.
       - Como?        '
       - Isto aqui  uma taverna, no uma casa de ch! No usamos toalhas de mesa.
       Ela franziu a testa.
       - No gostou das toalhas? - indagou. - Por isso est segurando o nariz? No acha isso muita infantilidade? Reese contou at dez e respirou fundo.
       - Voc bateu com a porta da cozinha no meu nariz - retrucou.
       - Oh, coitado! - Ela se aproximou dele. - Deixe-me ver. Protegendo o nariz com a mo, Reese afastou-se.
       - Voc j fez o bastante, obrigado - replicou, voltando para dentro do restaurante.
       - Pare de agir feito um beb!'- Syd ralhou e foi atrs dele. - S quero ver como est seu nariz. Nem vou tocar nele. - Sei, sei.
       Ela revirou os olhos, alcanou-o em frente ao balco, pousou as mos nos ombros largos e forou-o a sentar numa banqueta. - Fique quieto - ordenou, erguendo-lhe 
o queixo. - Est um pouco vermelho.
       - Claro que est vermelho! - ele disse, mas o toque das mos delicadas inexplicavelmente fez com que a dor diminusse. - Voc me "atropelou" com a porta.
       Syd inclinou a cabea dele de um lado para o outro, observando-lhe o rosto.
       - Parece que tem alguma coisa fora do lugar - comentou, pensativa.
       - E tem mesmo. Lucian quebrou meu nariz, quando ramos adolescentes.
       "Como  bom sentir mos macias no rosto", Reese pensou. "E o perfume dela...  igual ao de ontem  noite. Lavanda com algo mais."
       Respirou fundo, concentrando-se no perfume. Baunilha. Ele tinha identificado a essncia. Syd cheirava a lavanda e baunilha.        ' "Combina com ela", pensou.
       - Lucian quebrou seu nariz? - ela indagou, tocando delicadamente no nariz dele. - Barbaridade.
       Reese no conseguia lembrar-se de um toque feminino to gostoso.
       - Ele no fez de propsito - explicou. - Pelo menos, no era para me acertar. Estava brigando com Callan, mas Callan abaixou-se e eu, infelizmente, estava 
bem atrs dele.
       Movimentando a cabea negativamente, exasperada, Syd virou a cabea de Reese para o outro lado e posicionou-se entre as pernas musculosas.
       - Ento, todas as histrias que ouvi sobre os selvagens e temerrios Sinclair eram verdadeiras? - perguntou.
       - Maus at a alma, querida. No se esquea disso.
       Ela sorriu, e em seus olhos surgiu um brilho intenso. Reese pousou o olhar nos lbios carnudos e excitou-se.
       De sbito, sentiu uma imensa vontade de prov-los. Syd era uma mulher linda, com um corpo escultural, cheio de curvas. Ele no tinha certeza se ela estava 
ciente do fato, mas os seios macios e firmes estavam a centmetros de distncia de seu rosto, mais precisamente, de sua boca.
       O corao comeou a bater acelerado. Ele no podia acreditar nos sentimentos que estava experimentando por aquela mulher. Syd e sexo no combinavam. A pancada 
no nariz devia ter afetado seu crebro.
       Ela se aproximou ainda mais e tocou o nariz dele.
       "Como quero beij-la!", Reese pensou. "Deslizar as mos por baixo da blusa dela, sentir a pele aveludada..."
       Cerrou os punhos e pressionou seus lbios, contendo-se. - Melhor aplicar gelo - Syd sugeriu com certa hesitao na voz.
       - Talvez.
       Mas Reese no se mexeu, nem ela.
       - Di? - Syd perguntou, tocando outra vez no nariz dele, delicadamente.
       - Di.
       Mas no era apenas de seu nariz que ele falava. Havia outra parte de sua anatomia que naquele momento estava latejando.
       - Desculpe-me - Syd pediu, sentindo as faces corarem e pousando as mos nas faces dele. - Parece um pouco esfolado. Voc est bem?
       Como no conseguia falar, ele apenas moveu a cabea, afirmando, e levantou-se to abruptamente que seus corpos colidiram. Syd perdeu o equilbrio e ia cair, 
porm Reese segurou-a, fitou-a nos olhos e comeou a inclinar a cabea.
       A porta do restaurante abriu-se. Gabe e Melanie entraram, seguidos por Kevin, o filho de Melanie de cinco anos de idade, ento apareceram Callan e Abby e, 
por fim, Carla e Ian. De repente, Reese sentiu-se num mercado de peixe ou numa feira livre, tamanho o rudo que encheu o salo de repente.
       - Diabos, a famlia est quase toda aqui! - Gabe exclamou, pegando Kevin no colo.
       Reese notou as sobrancelhas do irmo erguerem-se, quando ele o viu segurando Syd, e soltou-a rapidamente.
       "Que beleza", pensou, irnico. "O que eles devem estar pensando? Oh, a verdade. Quase beijei Syd!"
       Ainda bem que sua famlia salvou-o de cometer um grande erro. Sabia que ouviria umas piadinhas a respeito da situao, porm seria um preo mnimo a pagar 
por ter sido salvo num momento de insanidade.
       - Minha me no me deixa falar palavro - Kevin comentou. - Ela fica furiosa.
       - Gabe falou "diabos" - Melanie explicou. - Oi, Syd,  bom ver voc.
       - Ol, Syd - Abby cumprimentou com um doce sorriso nos lbios, passando a mo em suas novas madeixas curtas com as quais parecia no estar acostumada, porm 
que seu marido adorava.
       - Veio para o caf da manh? - Carla indagou, tirando o casaco.
       Embora ainda estivesse no incio da gravidez, instintivamente passou a mo na barriga. Ian, seu marido, abraou-a e deu-lhe um beijo na testa.
       - Mais ou menos - Syd respondeu, cruzando os braos e lanando a Reese um olhar de "por que no conta para eles?" De repente, o salo ficou em completo silncio, 
e todos olharam para Reese.
       Mas que coisa!, ele pensou.
       Nunca imaginara que um simples jogo de cartas fosse dar no que dera. Agora, era obrigado a explicar  famlia a presena de Syd na taverna quela hora da 
manh.
       E baseando-se na expresso presunosa de Syd, ela no facilitaria as coisas para ele.
       - Bem,  um tanto engraado... - Reese comeou, hesitante. - Eu e Syd estvamos jogando pquer ontem  noite... Todos pareceram espantados, mas permaneceram 
em silncio. - Bem, fizemos uma aposta. E eu... bem... ganhei. - Ele fez uma pausa. - Syd vai trabalhar para mim durante duas semanas.
       "Dizer isso em voz alta soa to ridculo!", comentou consigo mesmo.
       - O qu? - Carla perguntou, estreitando os olhos com ar de desaprovao.
       - Duas semanas? - Ian repetiu.
       - Syd trabalhando aqui? - Callan indagou e comeou a rir. Abby deu-lhe uma cotovelada e movimentou a cabea negativamente, com ar incrdulo.
       Reese sentiu que sua cabea comeava a doer.
       - Eu propus a ela esquecermos a aposta, mas ela se recusou - declarou.
       - Negcio  negcio - Syd falou. - Eu perdi, Reese ganhou. Trabalharei aqui por duas semanas, trs horas por dia.
       - Com direito ao salrio correspondente aos dias trabalhados e gorjetas - Reese acrescentou.
       Tinha certeza de que seus irmos achavam aquela situao hilria, enquanto as mulheres olhavam-no como se ele tivesse chutado um filhote de cachorro.
       - Seu restaurante no vai abrir daqui a algumas semanas? - Melanie perguntou. - Como vai achar tempo para trabalhar aqui?
       - Est tudo quase pronto, no bistr, exceto pelos balces
       do buf, que Lucian vai instalar esta semana - Syd explicou. - S precisarei acertar alguns detalhes.
       - Oh, olhem! - Abby murmurou, ao olhar ao redor. - Toalhas de mesa e flores. Como o ambiente ficou mais bonito! - Belo toque, Reese - Carla comentou. - Deu 
um pouco de elegncia e sofisticao para a taverna.
       As toalhas de mesa. Reese ficara to concentrado no beijo que quase dera em Syd, que tinha esquecido as toalhas. Sua dor de cabea aumentou.
       - Foi idia de Syd - falou.
       - Parece que ele no gostou - 'Syd disse. - Estvamos falando sobre elas, mas nos distramos, porque bati com a porta no nariz dele. Foi acidentalmente, claro.
       Os outros olharam para Reese com ar interrogativo. - Estou bem - ele afirmou.
       - H dois minutos atrs, parecia um selvagem - Syd revelou. - Parecia que eu tinha tentado mat-lo.
       "E vai haver uma morte, se voc no ficar com essa sua boquinha fechada", Reese pensou, irritado.
       - Ei! - Lucian exclamou, entrando na taverna. - Por favor, no digam que eu perdi a histria sobre o que aconteceu entre nosso amado irmo caula e Syd Taylor 
ontem  noite. Ela entrou feito um furaco no escritrio e... - Notou Syd e parou abruptamente. - Bom dia, Syd.
       - Bom dia, Lucian - ela respondeu, ento abriu um amplo sorriso. - Temos uma grande mesa perto da janela da frente. Por que no se sentam? Levarei um caf 
fresquinho para todos; ento direi qual  o especial do dia.
       Com os dentes cerrados, Reese observou Syd caminhar com o charme e a elegncia de uma rainha inglesa, levando a famlia dele at uma mesa.
       "Ela me deixa furioso", pensou. "Est aqui a menos de uma hora e j mudou tudo. Toalhas de mesa, flores..."
       De repente, veio-lhe  lembrana alguma coisa como "especial do dia".
       Reese no tinha especial do dia. Lembrou-se da lousa que ela levara l para fora. Foi at l e leu:
       - Crepes Suos? Quiche  Lorraine?
       Aquela era uma taverna inglesa, no um restaurante francs. Praguejando, Reese pegou a lousa e levou-a para a cozinha.
       Como, em menos de uma hora, a taverna estaria cheia, no tinha tempo para discutir aquilo com Syd.
       Algo lhe dizia que as trs horas que passaria com Syd seriam as mais longas de sua vida.
       As trs horas de trabalho de Syd passaram para quatro, pois, com a taverna lotada, ela nem notara que estava ultrapassando seu horrio. Aparentemente, Reese 
tambm no tinha notado, pois ainda no a expulsara.
       Soltando um suspiro de cansao, ela se sentou no sof de vinil, na sala de descanso dos funcionrios. Aps perder o jogo de pquer na noite anterior, revirara-se 
na cama at o amanhecer, no descansara nada. E, mesmo com duas garonetes, Reese e Syd para atender os fregueses, o trabalho fora duro at aquele momento.
       Que a verdade fosse dita, apesar de que Reese jamais ficaria sabendo: Syd estava adorando cada minuto.
       Quando era garotinha, j gostava de ajudar a me nos jantares de negcios que seu pai dava. Fosse na cozinha, ou ajudando a servir os convidados na sala de 
jantar, adorava a alegria, a comida sofisticada, a mesa belamente decorada, as flores, os aromas, a msica no ar e as pessoas se divertindo.
       Uma vez, fizera a besteira de contar  me seu sonho de abrir um pequeno restaurante francs em Bloomfield. "Absurdo", "perda de tempo" e "futilidade" foram 
as palavras que ouvira da me.
       Nunca mais tocara naquele assunto, mas, um ano aps a morte da me, quatro semanas depois que Bobby a deixara no altar, ela se matriculara numa escola de 
gastronomia em Paris.
       Sabia que as pessoas continuariam falando a seu respeito. Ningum achava mesmo que um belo rapaz como Bobby pudesse se casar com a "rainha dos hunos". Ela 
bem podia imaginar os comentrios maldosos! "Bobby ficou com pena de Syd, por causa da morte da me dela. Ele queria status, afinal, o av dela  um juiz de renome 
na cidade, sem contar que a famlia Taylor tem muito dinheiro".
       Syd no era idiota. Sabia das fofocas. Mas acreditara que Bobby, mesmo no a amando, gostasse um pouco dela, o suficiente para, talvez, dar-lhe uma vida igual 
a das outras mulheres. Marido, filhos e uma grande casa com um imenso quintal. Filhos... Como ela queria um bando deles!
       Talvez no tivesse nada daquilo. Mas, ao menos, teria seu restaurante. Aquele era um sonho que ningum lhe tiraria. Em apenas poucas horas, naquela manh 
na taverna, levando os clientes at as mesas, anotando pedidos e servindo a comida, descobrira o prazer de sentir-se viva de novo. Sentia-se necessria. Estava adorando 
cada minuto. Tanto quanto estava adorando irritar Reese.
       Fechando os olhos, inclinou a cabea para trs e sorriu. Sabia que estava enlouquecendo-o. Ele detestara as toalhas de mesa, as flores e os acrscimos que 
ela fizera ao cardpio.
       Reese Sinclair se arrependeria profundamente de ter feito aquela aposta.
       Ela se sentia mal por ter acertado o nariz dele com a porta, porm. Ainda bem que no o quebrara. No gostava de violncia e, mesmo tendo sido um acidente, 
ficaria pssima, se o tivesse machucado com gravidade.
       O que acontecera entre eles depois inquietava-a ainda mais. Vinha dizendo a si mesma que s o tocara porque ficara preocupada, pois ele poderia precisar de 
um mdico. Mas, quando pousara as mos nas faces dele, esquecera que sua inspeo era estritamente de natureza clnica. A pele lisa, pois ele acabara de fazer a 
barba, e o perfume da loo deixaram-na perturbada.
       Teria Reese notado suas mos trmulas? Ou como ela tivera dificuldade para respirar? E, pior de tudo: que ela quisera que ele a beijasse?
       Syd acreditava que ele no tinha percebido nada. Aprendera, no passar dos anos, a esconder seus sentimentos. Do contrrio, como poderia ter sobrevivido a 
uma me furiosa e magoada, que nunca aceitara que o marido a deixara para nunca mais voltar? At o dia de sua morte, nada deixara a sra. Taylor feliz. Nem o dinheiro 
da famlia ou seu status na comunidade, nem as viagens ou a bela casa em que morava.
       - O que est fazendo ainda aqui?
       Syd abriu os olhos ao ouvir a voz de Reese. "Agora no", implorou mentalmente.
       A ltima coisa que precisava naquele momento era discutir com Reese.
       - At os prisioneiros condenados a trabalho forado tm cinco minutos de descanso - retrucou. - Ainda tenho um minuto.
       - Estou me referindo ao fato de voc ainda estar aqui. J cumpriu seu horrio. Na verdade, trabalhou uma hora a mais. - Eu disse a Julie que a substituiria, 
para ela poder descansar um pouco. Ela no parou um minuto, nessas trs horas. - Nem voc. J ultrapassou seus limites.
       - No pense que estou fazendo isso por voc - Syd avisou sem hostilidade. - S quero ganhar a simpatia de Julie para poder roub-la de voc. No  fcil encontrar 
funcionrios que trabalham com tanta seriedade.
       -  difcil encontrar funcionrios - ele corrigiu. - J contratou algum?
       Ela moveu a cabea negativamente.
       - Vou pr um anncio esta semana - respondeu.
       - Bem, siga este conselho: fique longe de aspirantes a atores e artistas. Um dia eles esto aqui, e no seguinte desaparecem magicamente.
       - Como noivos.
       Syd arrependeu-se dessas palavras, pois viu compaixo nos olhos de Reese. Mais do que detestava o que as pessoas diziam a seu respeito, odiava que sentissem 
pena dela: 
       Ele se sentou ao lado dela no sof. Syd ficou alerta. No tinha idia de como explicar o que sentia por Reese, porm, se tinha aprendido algo naquela manh, 
era que devia ficar longe dele. Especialmente estando to cansada. O cansao deixava-a vulnervel, e a ltima coisa que desejava era baixar a guarda com Reese. Ele 
era perigoso, com todo aquele charme. - Syd, preciso conversar com voc.
       "Se fssemos namorados, eu diria que ele ia terminar comigo", pensou.
       Mas no eram namorados, claro, e aquele pensamento era ridculo.
       Ela suspirou e fitou-o. Reese parecia preocupado, como se estivesse odiando o que ia dizer. Seria muito bom, se, por dois minutos, tivessem uma conversa civilizada, 
falando sobre negcios, como se fossem iguais. Ou parceiros. S que Reese no achava que fossem iguais, muito menos parceiros. Syd sabia que ele julgava que ela 
dirigiria seu restaurante como um passatempo, que no entendia nada do negcio e nem imaginava como aquilo dava trabalho.
       Mas Syd sabia o que estava fazendo e, o que no sabia, aprenderia. E Reese estava redondamente enganado, se achava que ela ficaria quieta, enquanto ele a 
reprimia, como faria com uma criana.
       - Se est preocupado com as flores e as toalhas de mesa, tudo bem, no fao isso de novo. S achei que daria um certo... je ne sais quoi... sofisticao.
       - No  sobre isso que quero... - Reese parou e estreitou os olhos. - Sofisticao?
       Syd prendeu atrs da orelha uma mecha de cabelos que se soltara do rabo-de-cavalo.
       - No sugiro que use flores e toalhas de mesa todos os dias - respondeu. - S achei que seria uma mudana sutil, que daria um ar de refinamento ao seu caf 
da manh de domingo.
       - Cuide de sua prpria vida, Syd.
       ? No precisa ser rude! Por mim, voc pode jogar amendoins no cho e servir cerveja em copos de papel.
       -  mesmo?
       - . - Ela se levantou e fitou Reese com um olhar frio. - Com licena. Vou ver se Julie precisa de mim, e, se no precisar, vou embora.
       Resmungando por entre os dentes, saiu da sala de descanso, sem dar a ele a chance de responder.
       Mas tropeou, perdeu o equilbrio e quase caiu. Ouviu a risada de Reese e, embora soubesse que era criancice, queria ter uma torta de banana nas mos para 
esfreg-la no rosto dele.
       Erguendo a cabea com altivez, afastou-se com passos rpidos.
       

     
     Captulo 4
       
       
       A menos que fosse um fim de semana prolongado ou a alta temporada de turismo, nas segundas-feiras, a taverna normalmente tinha to pouco movimento, que Reese 
a fechava mais cedo e aproveitava o tempo para arrumar a papelada do escritrio. Havia sempre livros de contabilidade a verificar, mercadorias a encomendar, sem 
falar que ele precisava preparar o cronograma de folgas dos funcionrios e dar alguns telefonemas. No eram tarefas que Reese gostava de fazer. Mas aceitava-as como 
a um mal necessrio. Punha um CD de Jonny Lang para tocar e sentava-se  mesa do escritrio, sem se esquecer de uma garrafa trmica com caf.
       J estava no escritrio havia duas horas e no tinha conseguido fazer muita coisa porque s conseguia pensar em Syd. Com uma xcara de caf nas mos, girou 
a cadeira e olhou atravs da janela para o jardim que fora renovado. Na primavera e no vero, os canteiros enchiam-se de flores de cores vivas, mas como j haviam 
entrado no outono, a folhagem cara., e somente uns poucos crisntemos ainda floresciam. Observou uma mamangava explorar uma flor e, pela milsima vez, Syd surgiu 
em sua mente.
       Aps um dia de trabalho, apenas, a situao j sara de controle. Quando entrara na sala de descanso no dia anterior, estava determinado a dar fim naquela 
palhaada. Ela parecia to cansada, sentada no sof e com os olhos fechados! To inocente. To serena.
       Reese sorriu. Com certeza nunca admitiria a ningum, porm no s estava se acostumando com a presena dela, como tambm adorando t-la por perto. Syd dizia 
o que lhe vinha  mente, mesmo que fossem coisas que ele no gostasse, mas, assim, mostrava uma honestidade admirvel. No usava sua feminilidade para manipular 
pessoas. Nada de jogos, sedues ou flertes. Nada de biquinhos ou birras. Mesmo quando tivera de limpar as mesas, ou encher as bisnagas de catchup, realizara a tarefa 
sem nenhuma hesitao.
       Reese nunca imaginara Syd Taylor anotando pedidos ou lavando pratos. Ela nascera em bero de ouro, mas no reclamara de nenhuma tarefa. Se Reese no a conhecesse, 
diria que ela estava adorando trabalhar na taverna. Alm de ter colocado as toalhas de mesa e os vasos com flores, Syd cometera o erro de dar a George Hubbel panquecas 
duplas com dupla camada de queijo, e ele acabara de sair do hospital com um marca-passo, mas o resto da manh passara tranqilamente.
       "Dizer que meu estabelecimento precisa de sofisticao!", Reese comentou consigo mesmo. "Isto  uma taverna, diabos!" Se a deixasse administrar a taverna, 
provavelmente ela poria nas mesas aquelas tigelas para lavar a ponta dos dedos e uma poro de talheres diferentes. Garfo e faca para peixe, garfo para isso, colher 
para aquilo.
       "Vou continuar com a brincadeira por mais um ou dois dias", pensou.  Deve ser o suficiente para Syd Taylor querer abandonar o "ringue". 
       Sorriu e tomou um gole de caf, observando a mamangava voar para longe.
       Syd s precisa de umas dicas de como relaxar e no levar tudo to a srio o tempo todo, disse a si mesmo.
       De repente, recordou que quase a beijara. Franziu a testa. Como desejara beij-la!
       "Mas que coisa! O que h nessa mulher, que ela me impede de trabalhar?", perguntou-se.
       Jamais pensara em Syd daquela maneira. Nunca notara como a pele dela era perfeita, como os olhos eram azuis, como os lbios cheios eram tentadores. E quando 
ela ficara entre suas pernas e aproximara-se, deixando os seios a centmetros de seu rosto, ele simplesmente poderia ter...
       - Ei, Reese, voc est a?
       Ele assustou-se ao ouvir a voz de Lucian e praguejou ao ver que tinha derramado caf na camisa. Ainda praguejava quando Lucian entrou no escritrio e acomodou-se 
numa poltrona.
       Quando Reese virou sua cadeira, Lucian olhou para a mancha em sua camisa e ergueu uma sobrancelha com ar crtico. - Ainda no sabe beber? - o irmo perguntou, 
sarcstico. Reese estreitou os olhos.
       - No sabe que  feio espionar as pessoas? - questionou, irado.
       ? No espionei. Voc estava a anos-luz de distncia, em outra galxia, ou pelo menos sua mente estava. - Lucian estendeu as longas pernas. - Qual o nome dela?
       - Nome de quem?
       Reese colocou a xcara na mesa, mexeu nos papis em cima da mesa, para ver se encontrava um guardanapo e encontrou um embaixo de uma ficha de cadastro.
       - Da mulher em quem voc estava pensando, quando entrei - Lucian respondeu. - Conheo esse olhar, mano. Quem ? Susan Williams? Ouvi dizer que ela e Larry 
terminaram.
       - Eles terminaram h uma semana. Estou tentando trabalhar, Lucian. Saia daqui, vamos.
       -  Nancy Turlow, no ? Ela entrou na taverna no sbado passado, com Heather, e no tirou os olhos de voc.
       Reese pegou uma caneta e voltou sua ateno para um papel com o balancete do ms.
       - Se o ramo de construo civil est to lento, que voc no tem nada melhor para fazer do que ficar sentado a, especulando sobre minha vida amorosa, preciso 
que o telhado seja consertado. V l e faa o oramento - declarou.
       - Eu agradeo, mas assim que terminarmos de fazer aquela loja, iremos para Ridgeway, ento ergueremos um prdio de escritrios de quatro andares em Angel 
City. Mas estou aqui a negcios. Quero falar com Syd.
       - Syd? - Reese olhou diretamente para o irmo. - O que voc quer com ela?
       - Gabe pediu para eu ir ao restaurante dela e tirar as medidas dos balces do buf. Syd no estava l, ento achei que estaria aqui.
       - Por que estaria?
       - Bem, como que voc a ganhou naquele jogo de pquer, achei...
       - No ganhei Syd, mas que inferno! - Reese levantou-se da mesa, olhou para o jardim pela janela e viu Boomer deitado na grama, tomando sol. Movimentou a cabea 
negativamente e bufou. - Como eu ia saber que ela sabia jogar pquer to bem?
       Lucian olhou para o irmo por um longo momento, ento ergueu as sobrancelhas.
       - Voc trapaceou - disse. - O qu?
       Reese virou-se.
       - Voc trapaceou - Lucian repetiu. - Conheo voc, mano. No me engana. Est nos seus olhos. Voc trapaceou. Reese colocou as mos nos bolsos da cala.
       - Ela estava ganhando - defendeu-se. - E toda cheia de si. Estava arrasando comigo.
       - E claro, era voc que tinha de arras-la. Reese deu de ombros.
       - No esperava que ela aceitasse jogar - falou. - Era uma... brincadeira.
       - No me parece que voc esteja rindo.
       - Pensei em propor novamente que a aposta fosse cancelada, principalmente ontem, depois que ela trabalhou duro na taverna. At ia confessar que trapaceei. 
Ento, ela ergueu o queixo com altivez, e, por alguma razo, deixei que a brincadeira seguisse em frente.
       Lucian riu.
       - Esse brilho nos seus olhos... Qualquer um v que est louco por Syd.
       - Mesmo vindo de voc, Lucian, essa  a coisa mais estpida que eu j ouvi. No estou interessado nela.
       Marilyn, uma das garonetes, abriu a porta do escritrio e sorriu para Reese.
       - Hei patro, posso pegar meu cheque agora? - indagou, ento olhou para Lucian. - Oi, Lucian.
       - Oi, Marilyn.
       Reese tirou um cheque da gaveta e deu-o a garonete, que saiu do escritrio rebolando.
       - Arrumei um grande problema - ele admitiu, passando a mo nos cabelos. - E acredite, estou pagando caro por isso. Mas no existe nada entre mim e Syd...
       - Ol! Sua irmzinha chegou.
       Reese bufou ao ver Carla entrando no escritrio carregando vrias sacolas de lojas.
       - Como voc e Syd esto se dando? - ela perguntou.
       - Reese sente alguma coisa por ela - Lucian informou, pegando as sacolas das mos da irm.
       Carla olhou para Reese, surpresa.
       - Est apaixonado por Syd? - indagou.
       "Por que no sou filho nico?", Reese perguntou-se, irritado. - Claro que no estou! - exclamou com azedume. - Ningum nessa famlia trabalha, alm de mim?
       - As segundas-feiras, no - Carla respondeu, prendendo uma mecha dos cabelos loiros atrs da orelha ao sentar-se numa cadeira.
       J fora detetive particular, mas agora administrava um abrigo para mulheres em Filadlfia, fundado pela av de seu marido. - Comprei umas coisas para a festa 
que daremos para Gabe e Melanie, no sbado. Ser uma surpresa para eles.
       - Que festa?
       - No comemoramos o noivado deles, ento Abby e eu pensamos em dar uma festa aqui. - Carla tirou os sapatos e franziu a testa ao ver seus ps com as marcas 
dos sapatos. - Nossa! Desse jeito, meus ps tero o tamanho de uma caixa de sapatos, quando o beb estiver para nascer.
       - Eles vo se casar daqui a um ms - Lucian falou, colocando as sacolas ao lado da mesa. - Para que precisam de uma festa agora?
       - Homens! - Carla suspirou e abanou a cabea negativamente. - Claro que precisam.
       Confusos, Reese e Lucian olharam-se e deram de ombros. _ - S a famlia - Carla disse e comeou a girar os ps. - Uma festa bonita, mas sem exageros. Eu e 
Corky estamos planejando o cardpio.
       - Planejando o cardpio? - Reese franziu a testa. O que h de errado com o meu cardpio?
       - No h nada de errado com seu cardpio - Carla respondeu com toda a pacincia de uma professora de escola infantil. - Abby e eu achamos que devemos fazer 
algo especial. O que h entre voc e Syd?
       Reese bufou.
       - No h nada. Ela s est... me ajudando aqui, enquanto estou com poucos funcionrios. Ns explicamos tudo isso ontem. Tentei faz-la esquecer nosso acordo, 
mas ela  to teimosa quanto uma mula.
       - Acho que ela  uma pessoa de palavra - Carla falou e olhou para Reese pensativamente. - E se voc tivesse perdido essa aposta?
       "Diabos", Reese pensou. "Famlia grande em cidade pequena no d certo. Eles querem saber de tudo, nos mnimos detalhes." Mas uma coisa era Lucian saber que 
ele tinha trapaceado no jogo de pquer com Syd, outra, muito diferente, era Carla saber disso.
       "Bem, ela no precisa saber", Reese comentou consigo. "Ningum precisa saber. J basta Lucian."
       S precisava agir com naturalidade. Pegou um lpis e um papel.
       - Eu teria de prender Boomer, para que ele parasse de estragar as flores do jardim de Syd.
       - Que aposta besta foi essa? - Carla indagou. - Voc devia mant-lo preso de qualquer maneira, com ou sem aposta. Syd  muito esperta para ter apostado s 
isso. O que est escondendo?
       Reese manteve o olhar fixo para o papel que tinha nas mos, como se fosse uma leitura fascinante.
       - Eu teria de trabalhar no restaurante dela por duas semanas - murmurou rapidamente.
       Lucian e Carla entreolharam-se e arregalaram os olhos. Quando os dois comearam a rir, Reese largou o lpis.
       - O que h de to engraado? - indagou, furioso.
       - Voc? Trabalhando para Syd Taylor no restaurante francs dela? - Lucian indagou. - Essa eu pagava para ver.
       - Que tal pagar para levar um soco? - Reese props, cerrando os punhos.
       - Nada de violncia na presena de uma grvida - Carla avisou, lutando para conter o riso. - Mas, Reese, voc tem de admitir que, se perdesse, seria muito 
engraado.
       - Por que vocs dois no vo embora? Tenho coisas melhores a fazer do que ficar aqui pensando em Syd o dia todo. Carla continuou sentada, pasma, e Lucian 
parou de rir, olhou para o irmo com ar zombeteiro.
       - Pensando em Syd? - Carla repetiu.
       - "Falando", eu disse "falando" - corrigiu.
       - No, no disse - Lucian falou. - Bem, ento voc e Syd sentem algo um pelo outro.
       - No sinto nada por Syd. - Claro que ele no sente. Os trs viraram a cabea na direo da porta ao ouvirem a voz de Syd. Ela estava parada entre os batentes, 
usando uma saia azul-escura e uma blusa de seda branca. Seguiu-se um longo momento de silncio. Os olhos azuis de Syd encontraram os olhos verdes de Reese, ento 
ela entrou graciosamente no escritrio, como se estivesse danando ao som de O Lago dos Cisnes.
       - Ei, Syd - Lucian cumprimentou. - Eu estava procurando voc.
       Ela olhou para Lucian.
       -  mesmo? - perguntou.
       - . Gabe pediu para eu tirar as medidas dos balces que voc quer que instalemos,
       Ela enfiou a mo no bolso da saia e tirou um molho de chaves.
       - Pode lev-las com voc, quando terminar. Tenho cpias - disse.
       Aproveitando a oportunidade para escapar, Lucian pegou o chaveiro.
       - Ento, vou tirar as medidas j - falou.
       - Pode me ajudar com essas sacolas, Lucian? - Carla pediu, enquanto calava os sapatos  levantava-se da cadeira. - S vou deixar as duas sacolas azuis. Elas 
so para a festa. Prazer em ver voc de novo, Syd. Por favor, mande minhas lembranas para o seu av.
       - Com certeza.
       Lucian e Carla saram, lanando um olhar malicioso para Reese.
       "Covardes", Reese pensou.
       Quando queria que fossem embora, eles no foram. Agora, que queria que ficassem, haviam sado o mais rpido que podiam. Voltou a ateno para Syd, que o observava 
atentamente com os braos cruzados. Aquele gesto fazia com que os seios dela ficassem pressionados contra a blusa e com mais volume. "No pense nos seios dela", 
Reese ordenou-se mentalmente. - De onde Lucian tirou aquela idia absurda de que sentimos algo um pelo outro? - ela perguntou.
       - No sabia que Lucian caiu de cabea, quando era beb? - Reese resmungou, voltando a sentar-se na cadeira.
       - Isso  verdade?
       - , sim - ele afirmou. - Meus pais pensaram em coloc-lo numa instituio, mas quando viram que ele no era perigoso, mantiveram-no em casa.
       - Todos os homens Sinclair so perigosos. Vocs todos deviam nascer com uma etiqueta, dizendo que so nocivos ao sexo feminino.
       - Adoro quando voc fala assim.
       Mesmo com a inteno de zombaria, Reese sentiu seu corao bater acelerado.
       Mantenha os olhos no rosto dela, ordenou-se, mais de uma vez tentando, desesperadamente, afastar o olhar dos seios tentadores, mas acabou pousando os olhos 
nos quadris.
       "O que ser que ela est usando por baixo da saia?", perguntou-se, ento movimentou a cabea negativamente. "Acho que fui eu que ca de cabea no cho."
       - Reese Sinclair, voc no consegue manter a seriedade nem por um minuto?  ridculo pensar que sinta algo de natureza fsica por mim, ou que eu sinta algo 
por voc. No quero que sua famlia tenha a impresso errada a nosso respeito.         Levantou-se devagar e aproximou-se dela.
       - O que h de errado com o fsico? - perguntou. - Na verdade, estou me sentindo cheio de energia, neste momento. - Ouvi dizer que levantar peso  uma forma 
de extravasar energia.
       - Existem outras maneiras de extravasar energia, muito mais divertidas - ele murmurou, aproximando-se de Syd ainda mais, pousando o olhar nos lbios dela.
       - Tnis  uma excelente forma de exerccio.
       Desconfiada, ela observou Reese aproximar-se, mas se recusou a recuar. Recusando-se tambm a pensar nas mos grandes, no corpo musculoso e nos ombros largos, 
forou-se a pensar na receita que desenvolvera, se tinha margarina o bastante, talvez devesse colocar menos acar mascavo, acrescentar baunilha...
       - Mas eu no gostaria de entrar no jogo sozinho - Reese declarou, passando por ela e fechando a porta do escritrio. - No?
       Syd tentou mostrar indiferena, porm, no ntimo, estava desapontada. Reese sorriu, aproximou-se novamente e tocoulhe o pescoo com a ponta de um dedo.
       - Prefiro esportes de contato - falou. - Algo que trabalhe o sistema circulatrio. Algo que faa o corao bater acelerado. O corao de Syd j estava batendo 
acelerado. Ela sabia que Reese estava provocando-a e, embora isso a irritasse, tambm a excitava.
       "Para ele, isto no passa de um jogo", comentou consigo mesma. "Ele acha que vou me render primeiro.. Bem, j que ele comeou, ele que termine."
       - Algum j lhe disse que voc tem um belo pescoo? - perguntou Reese. - E que seus cabelos so muito bonitos? - Curvou a cabea, e seus lbios ficaram a 
centmetros de distancia do ouvido dela. - Por que no solta os cabelos, Syd?
       Ela se arrepiou. Pensou em sair correndo o mais rpido que podia, mas sabia que era exatamente o que Reese desejava. Ele tinha certeza de que era irresistvel, 
mesmo para a fria Syd Taylor. E, se seu ego crescesse ainda mais, ele no passaria pela porta.
       - Claro que solto meus cabelos - ela falou calmamente. - Quando os lavo, antes de ir para cama, quando vou ao salo de beleza para cort-los, ou quando...
       - Gostaria de v-los soltos - ele declarou deslizando, dois dedos pelo pescoo dela.
       Syd respirou fundo.
       - Bem, se quer ver... Esto sem corte, mas  s dar uma passadinha no meu cabeleireiro. Coloco um pouco de creme nas mos para baixar os fios mais rebeldes 
e... ,
       - Quero ver voc de cabelos soltos, Syd.
       Ela no tinha idia de como era sensvel no pescoo. 0 toque de Reese era to suave quanto veludo e, ao mesmo tempo, to potente quanto o soco de um boxeador. 
Embora fosse ridculo, Syd sentia os joelhos tremerem, o corao bater descompassado e um forte calor.
       Reese aproximou-se um pouco mais. Ela arrepiou-se nova-mente e ficou furiosa por no conseguir evitar o arrepio. 0 que a deixava ainda mais furiosa era perceber 
que estava gostando. Tentou recobrar a compostura. Decidiu que era preciso correr. Ou para os braos de Reese, ou para bem longe dele. Uma batida de leve na porta 
assustou-a.
       - Entrega - algum l fora avisou. -  o Jessie.
       A porta abriu-se, e um jovem de cabelos pintados de branco e dois piercings no nariz apareceu.
       - Ei, Reese, onde quer que eu ponha estes sacos?
       Reese olhou intensamente para Syd, ento saiu do escritrio, seguido pelo rapaz. Ela encostou-se na mesa. Escapara por pouco. Quase se jogara nos braos musculosos, 
implorando para ser beijada.
       "Pattico", pensou, desgostosa. "Se eu quisesse ser beijada por algum, que fosse pelo rapaz da entrega."
       Mas, ao menos uma vez, s uma vez, queria que um homem lhe dissesse que tinha cabelos bonitos ou uma pele macia, e que aquelas palavras no fizessem parte 
de um jogo, ou que fossem uma mentira. Reese estava jogando, e Bobby s dissera palavras mentirosas. Somente uma vez, desejava que algum lhe dissesse palavras doces 
e sinceras.
       Respirou fundo e foi atrs de Reese. Encontrou-o assinando um papel para Jessie e zombando do rapaz por causa dos piercings que ele usava.
       Esperou at o entregador sair, ento se aproximou cautelosamente de Reese, que por sua vez, olhava para o que unha acabado de receber.
       Acho que preciso aprender a lidar com ele, comentou consigo mesma.
       No havia motivo para os dois ficarem discutindo ou se provocando o tempo todo. Talvez Reese tivesse razo. Talvez ela devesse soltar os cabelos. Seria uma 
forma de mostrar que relaxara. Aproximou-se dele, pronta para agir com amabilidade. Reese virou-se e sorriu. Ela tambm sorriu.
       - Reese...
       - Isto pode levar tempo, ento acho melhor voc comear. - Levar tempo?
       Reese pousou a mo num dos sacos.
       - Achei que voc teve uma excelente idia - disse. - Isto , de dar um ar rstico  taverna.
       - Do que est falando?
       Syd olhou para dentro dos sacos. Amendoins. Quilos e quilos de amendoins. Centenas de milhares de amendoins.
       - Pode comear a descasc-los. Vou servi-los no bar - ele declarou.
       Ela pestanejou.
       - Est brincando, no ? - indagou. - No.
       0 perigoso predador sexual tinha dado lugar ao frvolo Reese Sinclair.
       - Quer que eu descasque esses amendoins? - Syd perguntou. - Com as mos?
       - Como no h outra maneira de descascar amendoins, e j que a idia foi sua, achei que voc quisesse ficar encarregada do trabalho.
       "Como fui idiota em pensar que podia baixar a guarda!", Syd ralhou consigo mesma. "Mas no vai acontecer de novo." Cruzou os braos e ergueu o queixo.        
       - No h amendoins suficientes para criar uma atmosfera rstica na taverna - retrucou. - Se vai fazer algo, Reese, que ao menos faa direito.
       Ele abriu um sorriso charmoso.
       - Bem, Syd, tenho certeza de que posso deixar esse projeto em suas mos. Voc tem minha permisso, querida, e j que s fica aqui durante trs horas, sugiro 
que comece a descasc-los agora. H muitos amendoins.
       Assobiando, Reese pegou a chave de sua caminhonete de cima do balco do bar e saiu. Syd foi at a janela e observou-o partir.
       - Antiptico! - exclamou.
       Levaria horas para descascar aqueles amendoins. Dias. Ela sabia que no era bem aquilo que Reese desejava. Na verdade, ele queria faz-la desistir da aposta.
       - Mas Syd Taylor no desiste - ela murmurou
       Olhando para o outro lado da rua, viu Lucian sair de seu restaurante e caminhar na direo da taverna, mas ele parou no estacionamento para conversar com 
Jessie. Observou os dois homens conversarem por alguns instantes, ento olhou por sobre o ombro, para os sacos de amendoins, e sorriu.
       Saiu da taverna e dirigiu-se ao estacionamento.
       

     
     
     Captulo 5
       
       
       Reese ficou fora da taverna durante duas horas e quinze minutos. Tinha muitas coisas a fazer: ir ao banco,  loja de ferragens do Harry, ao correio e  loja 
de jardinagem. Detestava aquelas tarefas tanto quanto a papelada em seu escritrio, mas naquele dia fazia aquilo com um sorriso nos lbios. Muitas vezes, para surpresa 
das pessoas que estavam por perto, riu sem motivo aparente.
       A expresso atnita de Syd, quando ele dissera que tinha de descascar os amendoins! Ele no esqueceria aquele momento nunca.
       "Isso deve tirar aquele ar de prepotncia dela", pensou ao estacionar a caminhonete em frente  taverna. "Um pouco de humildade no mata ningum."
       Gostaria de ter ficado e v-Ia descascar centenas e centenas de amendoins, mas, depois do pequeno encontro que tiveram no escritrio, achara melhor manter 
distncia por um tempo. Parecia que sofria de contnuos lapsos de sanidade, quando ficava perto de Syd.
       Jamais admitiria isso a ningum, mas Syd Taylor deixava-o nervoso.
       As mulheres nunca o deixaram nervoso. Adorava cada particularidade delas: os mistrios e a insensatez, o perfume, o jeito de andar, as curvas das pernas e 
o gingado dos quadris. Ele sempre se sentira  vontade com o sexo oposto. Completamente sob controle. Se estava atrado por uma mulher, e ela por ele, era muito 
fcil dar o passo seguinte. No dormira com todas as mulheres com quem sara, mas sempre adorara a companhia delas.
       Era tudo muito simples e descomplicado, at que ele se deparara com Syd.
       Ela era teimosa, esnobe, condescendente. Nenhuma mulher exercia o efeito que Syd exercia sobre ele, que nunca passara horas pensando numa mulher, fantasiando 
com as curvas do corpo dela, com o sabor da pele dela, imaginando como seria toc-la e beij-la.
       E quando tocara o pescoo de Syd, quisera fazer muito mais do que s fantasiar. Sentira que ela ficara arrepiada. A "rainha dos hunos" no estava to desinteressada 
assim, no era to fria como queria que todos acreditassem. Ele poderia t-la beijado, quisera beij-la, e ela teria deixado. Beijar Syd no teria significado nada. 
Ele j beijara muitas mulheres e, embora tivesse sido muito bom, no passara de beijos.
       Ento, por que no beijara Syd?
       Por que sentira-se aliviado, quando Jessie os interrompera? Por que no dera fim quela aposta, contando que havia trapaceado no jogo?
       Orgulho. Cada vez que Syd olhava para ele, cada vez que ela erguia o queixo, mexia com seu orgulho de homem. Queria que ela se rendesse. Que desistisse.
       "A srta. Syd Taylor deve estar bem mansinha, agora", ele pensou.
       Desceu da caminhonete e entrou na taverna. Encontrou Syd sentada numa banqueta, no balco do bar. No cho, havia uma caixa, onde ela jogava os amendoins descascados. 
 direita, no balco, havia outra caixa, onde ela punha as cascas. Reese assobiava alegremente, quando se aproximou.
       - Ei, Syd, quantos amendoins descascados! Parece que voc esteve muito ocupada.
       - A ociosidade  o refgio das mentes fracas - ela retrucou. Voltou sua ateno para os amendoins, e Reese observou-a. Ela possua mos delicadas, e ele recordou 
o toque delas em seu rosto. Toque gostoso, suave, macio...
       Pare com isso, ele ralhou consigo mesmo.
       - Voc tem um talento natural para descascar amendoins, Syd.
       - Fica fcil, quando se pega o .ritmo. - Ela no o fitou, apenas jogou mais uma casca na caixa em cima do balco, os gros na caixa no cho, e pegou outro 
amendoim. - Chega a ser relaxante. Como bordar ou tricotar.
       "Relaxante? Como tricotar? Bordar? Sei, sei", Reese pensou, suprimindo um sorriso. "Ela parece convincente, mas est blefando. No vai funcionar."
       - Posso encomendar mais? - indagou. - Voc mesma disse que esses amendoins no so suficientes.
       - No ser necessrio.
       Syd olhou-o e sorriu. O sorriso dela cativou-o e chamou a ateno dele pra os lbios carnudos. Syd no estava usando batom, porm a boca estava rosada. Reese 
rapidamente olhou para os olhos dela, o que no ajudou muito, pois eles cintilavam de alegria.
       "No desta vez, Syd", ele comentou consigo mesmo. "Desta vez no tem como voc me distrair."
       Tinha certeza de que ela estava furiosa. E sentia-se pronto para saborear seu triunfo.
       "Mais uns dez amendoins, e ela desiste", comentou consigo mesmo. "Mal posso esperar."
       - Bem, Syd, foi bom conversar com voc. Se precisar de algo mais, estarei no escritrio.
       Ela moveu a cabea afirmativamente e voltou a trabalhar. Reese foi para o escritrio. Se no conhecesse Syd, diria que ela estava se divertindo. Mas claro 
que no estava. Devia estar com os dedos em fogo.
       Reese abriu a porta do escritrio, e uma avalanche de amendoins caiu em cima dele. 
       - O que  isso?!
       Milhares de amendoins. Ele tentou no cair, mas no conseguia equilibrar-se. Os amendoins encheram o corredor. Quando o ltimo rolou para fora, Reese estava 
deitado no cho, olhando para o teto, quase coberto pelos amendoins.
       "Algum vai pagar por isso!", ele ameaou em pensamento. Quando o "algum" apareceu, Reese sentou-se, furioso.
       - Acho que esqueci de dizer que pedi mais uns sacos de amendoim - Syd comentou, olhando-o como se estivesse preocupada. - Voc disse que eu tinha permisso 
para fazer o que quisesse e, j que eu no sabia onde pr tudo isso...
       Assustou-se, quando Reese puxou-a para baixo, deitando-a e estendendo-se sobre ela num rpido movimento. Amendoins estalaram, rachando. De olhos arregalados 
e boca entreaberta, ela viu o brilho "assassino" nos olhos de Reese e alguns amendoins presos ao cabelo dele.
       Comeou a rir. Reese logo pensou em mais vingana, e um sinistro sorriso apareceu em seus lbios. Ela tentou levantar-se, mas ele a impediu e jogou-lhe um 
punhado de amendoins no peito. Ento, foi deflagrada uma guerra de amendoins.
       Com Reese por cima do corpo dela, Syd encontrava-se em desvantagem, mas ela no desistiu e "lutou" bravamente. Amendoins voavam para todos os lados, feito 
pipoca. Ela tentou libertar-se, porm Reese segurou-a com mais fora. Ele era muito forte, e, se ela tentasse escapar, acabaria provocando uma situao muito embaraosa.
       - Pronto? - Syd perguntou, ofegante. - Vingou-se? Reese achou aquilo absurdo. Considerando as circunstncias, ela no estava em condies de fazer tal pergunta. 
Ele meneou a cabea com fora, fazendo pedaos de casca de amendoim escorregarem de seus cabelos.
       - Me diga uma coisa. Como conseguiu arquitetar essa brincadeira?
       ? Lucian me ajudou. Entramos pela janela de seu escritrio e esvaziamos os sacos de amendoins no cho. Jessie tambm ajudou. Ele  um amor. Depois, samos 
pela janela.
       - Meu irmo, sangue do meu sangue, fez parte dessa trama diablica? E Jessie tambm? - Reese franziu a testa. - Haver um triplo assassinato em Bloomfield. 
Ser a notcia central do noticirio desta noite.
       Syd abriu um amplo sorriso.
       - Lucian queria ficar para ver sua cara, mas tinha um compromisso - contou.
       - Ah, ?
       Reese olhou-a, notando como seu corpo pressionava o dela, numa posio muito ntima, muito sensual...
       - Eu... eu terei de fazer um relato detalhado ao seu irmo, quando o vir esta noite - ela disse, hesitante.
       Tentou convencer a si mesma de que falava de modo ofegante porque lutava para escapar.
       - Eu mesmo farei esse relato a ele - Reese declarou. - Depois que ele pegar os dentes do cho, usando uma pina.
       - Assumo toda a responsabilidade pelo que houve aqui. Insisto em que todas as conseqncias caiam sobre mim apenas. - Insiste, ? Todas as conseqncias? 
Tem certeza, Syd? Ela no tinha certeza de nada, naquele momento. Na verdade, estava encontrando grande dificuldade para raciocinar com clareza. O corpo de Reese 
era feito de msculos. Os olhos dele exibiam um brilho malicioso. A boca firme era uma tentao, e os fartos cabelos pretos caam na testa lisa, ainda com cascas 
de amendoins.
       O ar pareceu ficar rarefeito.
       Syd no desejava cruzar os limites e fazer algo de que pudesse se arrepender depois. J tinha arrependimentos suficientes em sua vida e no tinha inteno 
de acrescentar Reese Sinclair a sua lista.
       Seu corao bateu acelerado, diante da possibilidade de ela entregar-se a Reese. Ainda bem que continuava em seu juzo perfeito.
       - E, ento? - ela indagou, desesperada para dar um toque de humor quela situao extremamente perturbadora e sensual. - J terminou?
       Reese fitou-a por um longo momento, ento pousou o olhar na boca provocante.
       - Nem comecei - respondeu.
       Curvou a cabea e aproximou os lbios dos dela. Syd arrepiou-se, e seu juzo perfeito evaporou-se. - Reese... no acho...
       - Nem eu.
       O beijo aconteceu, trrido. Syd sentiu-se enfeitiada. Sempre ouvira falar que os beijos de Reese Sinclair eram fabulosos, porm nunca crera naquilo. Sempre 
achara que tudo no passava de conversa tola de garotas romnticas.
       Mas era verdade.
       Syd no tinha defesa contra aquele beijo, contra Reese. O beijo dele detonava qualquer argumento, qualquer tentativa de usar a lgica e a razo.
       Reese soltou-lhe os pulsos. Ela ergueu os braos e envolveu o pescoo largo. Ele a beijou no pescoo e na orelha, murmurou algumas palavras insinuantes, e 
ela sentiu os bicos de seus seios ficarem eretos. Habilmente, ele deslizou as mos pelo corpo curvilneo, levantando a saia, expondo as coxas tem torneadas. Ela 
sentiu-se aquecer sob o toque das mos calejadas, querendo mais. Engoliu em seco, quando Reese ergueu-lhe a blusa e cobriu os seios com as mos em concha, excitando 
os bicos eretos e sussurrando o nome dela em tom rouco.
       - Oi! Tem algum aqui?
       Tanto Syd quanto Reese assustaram-se com a voz grave que ecoou pela taverna. Reese praguejou, levantou-se e ajudou Syd a erguer-se tambm. Trmula, ela ajeitou 
a saia e a blusa. - Sydney Marie Taylor! Voc est aqui? '
       Ela estremeceu e quase entrou em pnico, ento endireitou os ombros, respirou fundo e gritou:
       - Estou aqui, vov!
       

     
     
     Captulo 6
       
       
       O juiz Randolph Tremaine Howland, proeminente e rico cidado do condado de Bloomfield, estava no corredor que dava acesso ao escritrio de Reese. Seu terno 
cinza-escuro combinava com a cor de seus olhos, olhos que naquele momento encontravam-se estreitados ao observarem os amendoins espalhados pelo cho e as roupas 
amassadas de Reese e de sua neta.
       Reese sorriu para ele, constrangido.
       - Ol, juiz Howland - cumprimentou por fim.
       Seu corpo estava tenso de desejo, o sangue ainda em ponto de ebulio. Tinha vontade de agarrar Syd, lev-la para o escritrio, fechar a porta e terminar 
o que tinham comeado. Que fossem todos para o inferno, inclusive o av e qualquer outra pessoa que ousasse interromp-los.
       Mas precisava encarar a realidade. Olhou para o juiz, ento para Syd, que tinha as faces coradas e os cabelos despenteados, lamentando o fato de que sua fantasia 
no ia se realizar.
       O olhar do juiz passou de Syd para Reese, ento pousou no cho coberto por um carpete de amendoins.
       - O que aconteceu aqui? - Randolph indagou. Syd respirou fundo e respondeu:
       - Estvamos dando um jeito nessa baguna. Uns sacos com amendoins rasgaram. No foi, Reese?
       "Oh, claro", Reese comentou consigo mesmo. "Todo mundo junta amendoins deitado no cho, beijando-se."
       - Foi - afirmou. - Os amendoins caram dos sacos.
       O juiz franziu as sobrancelhas grisalhas ao fitar Syd com ar de censura.
       - Se precisa de dinheiro, por que no foi me procurar? - perguntou.
       - Como assim? - Ela franziu a testa, confusa. - No preciso de dinheiro.
       - Ento, por que est trabalhando aqui... numa taverna, se no precisa?
       Reese cruzou os braos e encostou-se no batente da porta. ", Syd, conte ao seu av por que est trabalhando aqui", pensou.
       Ela cruzou os braos.
       - No estou trabalhando na taverna, vov.
       - Fui informado de que voc limpou mesas e serviu comida aqui, ontem. Do que voc chama isso? De divertimento? Syd sentiu que seu lbio inferior comeava 
a tremer.
       - Bem... no ... mas... - Fale, garota!
       ?  um... acordo de negcios - ela explicou cautelosamente. - Estou ajudando Reese por alguns dias, enquanto ele no arruma outra garonete para substituir 
uma que teve um beb. Fez uma pausa e olhou para Reese.
       Ele sorriu.
       "Desculpe-me, Syd, mas voc est nessa sozinha", disse mentalmente.
       Como se tivesse lido os pensamentos dele, ela suspirou e  olhou para o av.
       - Em troca, ele est me ensinando algumas coisas sobre - administrao - mentiu. - Dando-me conselhos sobre como administrar um restaurante.
       -  mesmo? - Randolph indagou, estreitando os olhos e olhando para Reese. - Por que voc daria conselhos a um concorrente?
       Reese olhou para Syd, pensou em ajud-la, ento se lembrou dos amendoins, dos quais levaria semanas, talvez meses, para se livrar. Alm do mais, no podia 
deixar aquela oportunidade passar. Apesar do beijo ardente que tinham trocado, e mesmo ele querendo beij-la de novo, Syd era sua adversria.
       - Bem, senhor, honestamente, quando Syd apareceu aqui, pedindo minha ajuda, pensei em me recusar a ajud-la - falou, ento moveu a cabea negativamente, suspirando. 
- Mas ver uma mulher chorar faz meu corao doer. No tive como dizer "no".
       - Syd? Chorando?
       Randolph mostrou-se surpreso, e Syd, furiosa.
       "Que tal colocarmos isso no relato detalhado que faremos a Lucian?", Reese comentou consigo mesmo, zombeteiro.
       - Ento, pensei bem e decidi que tambm era de meu interesse dar auxilio a Syd - prosseguiu. - Ter mais um restaurante como opo para o jantar atrair mais 
pessoas das cidades vizinhas, at de Filadlfia. E mostrar um pouco da realidade a Syd daria a ela uma chance de obter sucesso.
       - Na verdade, Reese est exagerando, vov.
       - Muito bem pensado, rapaz - Randolph elogiou. - O aumento do comrcio na cidade beneficia todo mundo. J pensou em se candidatar a prefeito? Um homem com 
sua viso de prosperidade seria muito til para o desenvolvimento de nossa cidade.
       - Deixo a poltica para homens experientes como o senhor. Reese sabia que estava entrando em terreno perigoso, mas o juiz no parecia se incomodar. Syd, contudo, 
estava obviamente incomodada. As faces dela estavam vermelhas de raiva. Quando o telefone celular de Randolph tocou, ele o tirou do bolso. Enquanto o av falava 
ao telefone, Syd deu-lhe as costas, olhou para Reese e murmurou palavras que no condiziam com sua educao de moa fina. Reese apenas cruzou os braos e sorriu.
       Quando o av terminou de conversar ao telefone, ela fechou a boca e virou-se para ele. Praguejando, Randolph guardou o celular no bolso.
       - Algo errado, vov?
       - Sa do gabinete faz menos de uma hora, e aquilo l j est um caos - Randolph informou, irritado. - O rapaz que conserta a mquina de fax queimou um fusvel, 
e agora esto sem energia eltrica. E a homenagem ao senador Johnson, na prefeitura, foi transferida para amanh de manh.
       J deixando os amendoins e Syd em segundo plano, Randolph saiu da taverna. Ela o observou partir, ento se voltou para Reese.
       - Eu pedi sua ajuda, chorando? - questionou. - Pedi sua ajuda e voc no teve como negar? - Aproximou-se dele e apontou o dedo indicador para o peito largo. 
- Como ousa dizer a meu av que praticamente implorei que me ajudasse? Vendo as faces coradas e os olhos azuis cintilando furiosamente, Reese concluiu que Syd era 
linda. Olhou para o dedo acusador, apontado. para o seu peito, e pensou em beij-la de novo, mas seu bom senso prevaleceu.
       - Eu s quis salvar sua pele, Syd. 0 que seu av diria, se soubesse a verdade? Que voc jogou pquer com o dono de uma taverna e perdeu? Voc devia me agradecer.
       - Agradecer? - Ela revirou os olhos e praguejou. - Depois das duas horas de sermo que terei de ouvir do meu av por causa de minha falta de profissionalismo, 
vir uma hora de sermo sobre como devo me comportar diante de um homem. Voc foi o nico que se beneficiou com essa nossa absurda aposta, ento, no espere nenhum 
agradecimento de minha parte.        
       - Tudo bem, Syd.
       Ela deu um passo para trs, quando ele tocou-lhe os cabelos para tirar uma casca de amendoim.
       - Mas vamos terminar o que comeamos - ela afirmou com determinao.        ,
       Reese sorriu.
       - Com prazer - disse.
       Inclinou-se para a frente, deixando os lbios a centmetros dos dela. Syd pestanejou e afastou-se.
       - Oh, no! - exclamou, recuando e esmagando alguns amendoins. - Isso  uma coisa que no vamos terminar. No vai acontecer nada entre ns, Reese Sinclair.
       Virou-se e afastou-se rapidamente.
       - No aposte nisso, Syd - Reese disse baixinho, observando-a voltar para o salo.
       Os lindos vidros jateados das portas de carvalho, que ela estava limpando, dariam as boas-vindas aos fregueses do Le Petit Bistrot, quando o restaurante fosse 
inaugurado, dali a trs semanas. Era um restaurante pequeno, com espao para sete mesas, mas era exatamente o que Syd desejara. Ela preferia ambientes aconchegantes 
e pequenos, com msica suave, tudo simples e elegante. Tinha uma equipe de trabalho pequena: uma colegial chamada Becky, que estudaria de manh e seria sua, anfitri, 
Nell, uma me solteira recm-chegada a Bloomfield, que fora a primeira a responder ao anncio de garonete e que fora to bem na entrevista, que Syd a contratara 
no mesmo instante. E havia tambm Lorna, uma assistente de chefe de cozinha, formada por uma escola de gastronomia em Filadlfia. Syd elaborara e provara o cardpio, 
ordenara mantimentos e colocara anncios nos jornais. Exceto pelos balces do buf, que Lucian instalaria na semana seguinte, tudo estava em seu devido lugar.
       Ela olhou ao redor de seu restaurante e sorriu, feliz. As mesas estavam nuas, mas no dia da inaugurao estariam cobertas por toalhas de linho rosa e exibiriam 
vasos com flores. Ela conseguia imaginar os murmrios das conversas dos clientes ecoando no ambiente, o tilintar dos garfos e facas nos pratos de porcelana, sentir 
o cheiro dos legumes passados na manteiga.
       Na infncia, quando teve idade suficiente para alcanar a pia da cozinha, quis aprender a cozinhar, mas a me nunca permitiu. A preparao da comida era tarefa 
de empregados. A sra. Taylor adorava dizer aquilo. Syd, sendo neta do honorvel juiz Howland, deveria receber e entreter convidados com conversas sobre assuntos 
atuais, ou contando charmosas histrias de famlia. Mais nada.
       Mas, de vez em quando, Syd fugia para a cozinha e observava Emily, a cozinheira da famlia, preparar as refeies. Ficava observando-a durante horas, fascinada. 
Mas a me sempre a encontrava e levava-a embora, repreendendo-a austeramente por no se comportar como uma Howland-Taylor.
       A me fora uma esnobe de primeira classe.
       Syd sabia que todos, em Bloomfield, achavam que ela era to pretensiosa quanto a me. Embora saber daquilo a deixasse magoada, ela entendia por que as pessoas 
pensavam daquele jeito. Passara grande parte de sua vida comportando-se como a me.
       Mas era muito pior do que esnobe. Era covarde.
       Desde pequena sempre tivera medo. Medo de tirar uma nota inferior a dez numa prova, de sujar o vestido ou de dizer algo errado, de que seus pais brigassem, 
se ela no fosse perfeita. Ento, sempre tinha um crdito extra, nunca se atrasava, mantinha as roupas limpas e impecveis e nunca deixava o quarto em desordem.
       Mas nada daquilo fizera diferena. Seu pai fora embora de casa quando ela completara doze anos e nunca mais voltara. Nem um dia havia se passado, sem que 
a me dissesse palavras carregadas de raiva e desprezo a respeito dele.
       No se passara um dia, um nico dia, sem que Syd pensasse que, se tivesse feito menos barulho, ou no tivesse reclamado por ter de comer verduras, seu pai 
no teria partido.
       E ento, catorze anos depois, Bobby talvez no a tivesse abandonado tambm.
       Mas, no ntimo, sabia que seu casamento com Bobby no daria certo. No entanto, de alguma maneira, estar ciente daquilo no minimizara a vergonha de ser deixada 
no altar e receber a notcia de que seu noivo no apareceria. E, depois, de ter de dizer aos convidados que o noivo ficara doente e que a cerimnia estava cancelada.
       Bobby cansara-se dela, essa era a verdade.
       Mas sua vergonha transformara-se em raiva; a raiva em determinao, a determinao em coragem. Coragem para fazer o que sempre secretamente desejara. Seu 
av dissera que o restaurante era um empreendimento de risco, que a maioria falia em menos de um ano, que o trabalho era rduo, as horas longas. Nada a fizera mudar 
de idia.
       Ela preferira deixar que todos sentissem pena dela ou a achassem esnobe demais. Mas realizaria seu sonho, e era isso o que importava. Le Petit Bistrot seria 
o melhor .restaurante da cidade.
       De repente, pegou-se pensando em Reese e sorriu ao recordar o susto que ele levara, ao abrir a porta do escritrio, trs dias atrs, e ver aquele mar de amendoins. 
Fora uma deliciosa vingana.
       Ento, ele estragara tudo, beijando-a.
       Ningum nunca a beijara daquele jeito. Nem Bobby. Ou Ken, o gerente do banco da cidade, que fora seu namorado durante algum tempo. Nem mesmo Jean-Paul, o 
chefe francs, especialista em massas, com quem ela sara quando morara em Paris.
       Ela nunca perdoaria Reese por aquele beijo.
       Antes do beijo, fora fcil, para ela, se convencer de que jamais se,apaixonaria por um homem como Reese. Eles eram totalmente opostos. Ele era um solteiro 
assumido, ela queria um compromisso srio. Ele nunca levava as coisas a srio, ela considerava-se zelosa e compenetrada, e gostava de toalhas de mesa e flores, o 
que obviamente ele detestava.
       Mas, apesar disso, o que realmente amedrontava Syd era a possibilidade de, por mais remota que pudesse ser, apaixonar-se por Reese, sabendo que seu sentimento 
jamais seria retribudo. Tinha medo de que ele partisse seu corao, ou melhor, que o aniquilasse, pois Bobby j o partira.
       Cada vez que pensava no beijo, cada vez que lembrava como as mos fortes haviam deslizado por suas pernas, tocado seus seios, como ficara excitada, arrepiava-se.
       "Diabo de homem!", pensou. 'Mas posso contornar a situao. Estava consciente da atrao que sentia por Reese, mas manteria distncia, como conseguira fazer, 
nos ltimos trs dias. Notara que ele tambm se mantivera afastado. Provavelmente j se esquecera do beijo. Sem dvida, beijar mulheres era coisa comum para Reese 
Sinclair. Mais uma mulher, mais um beijo, numa longa lista, no significavam nada. Contanto que ela conservasse os ps firmes no cho e fosse sensata, estaria salva.
       - Uma flanela funciona melhor, quando se est tentando remover pequenas manchas.
       Ela virou-se ao ouvir o som da voz de Reese.
       "J no basta ele entrar na minha mente, precisa aparecer aqui em carne e osso?", indagou-se.
       - Reese! Voc me assustou.
       - Desculpe. - Sorrindo, ele olhou para a flanela que Syd tinha na mo. -- Eu no sei se voc est polindo, ou castigando a madeira.
       Ela tambm no tinha certeza, j que estivera pensando nele. Com receio de que ele visse aquilo em seus olhos, voltou a esfregar a flanela numa parte da porta.
       - 0 que veio fazer aqui? - perguntou.
       "Por que ele tem de ficar to perto?", reclamou para si mesma, irritada. "E por que tem de ficar incrivelmente lindo, de cala jeans surrada e camiseta verde-musgo, 
que faz com que seus olhos fiquem escuros como a vegetao de uma densa floresta? Que inferno!"
       - Vim lhe trazer flores - Reese explicou.
       Syd sentiu o corao bater mais forte. Ele lhe levara flores? No fazia sentido. Fitou-o com cautela.
       - Voc, o qu? - indagou.
       - Flores. Eu lhe trouxe flores.
       Nenhum homem tinha dado flores a Syd. S o av, mas isso no contava.
       - Trouxe? - ela repetiu tolamente.
       - Venha ser. - Reese gesticulou na direo da frente do pequeno restaurante. - No sei como elas so chamadas. O florista disse que voc poderia plant-las 
agora, que elas no vo morrer, a no ser que neve.
       Syd olhou para fora e viu vrias mudas ao lado do canteiro cercado de tijolos vermelhos, que Boomer tinha destrudo. "Ele me trouxe mudas", pensou. "No flores".
       Claro que Reese no ia lhe dar flores. E s por ter pensado naquela possibilidade, mesmo que por um minuto, ela se sentiu uma completa idiota.
       - Obrigada - agradeceu, voltando a polir.
       Se olhasse para Reese, ele talvez lesse seus pensamentos e ficasse sabendo como ela era boba.
       - O jardineiro que trabalha para mim na taverna vir aqui mais tarde, para plantar as mudas - ele falou. - Eu mesmo as plantaria, mas provavelmente causaria 
mais estrago do que Boomer.
       Obrigada, mas prefiro plant-las, eu mesma.
       Syd foi at um dos dois balces do buf e ajoelhou-se, comeando a passar a flanela nas pernas do mvel.
       -  minha responsabilidade, Syd. Foi meu cachorro que... - Prefiro eu mesma plantar as mudas.
       - Syd, acho que devamos... conversar. Reese agachou-se ao lado dela e segurou-lhe a mo. Syd sentiu o corao disparar. Sabia que devia levantar-se, no 
permitir que Reese ficasse to perto, porm permaneceu onde estava, com os joelhos roando nos dele.
       - Tudo bem - concordou.
       - No quero que v a taverna de novo.
       Ela estava certa de que uma bofetada teria dodo menos do que aquelas palavras. 0 aperto que sentiu no peito parecia dificultar sua respirao. Livrou a mo 
da dele e forou-se a manter a ateno nas pernas do balco.
       - Tudo bem - repetiu.
       Reese passou a mo nos cabelos e bufou.
       - Deus, no foi isso o que eu quis dizer! - exclamou. - Eu no quero que voc trabalhe na taverna:
       "Oh, isso me faz sentir to melhor!", Syd comentou consigo mesma, irnica.
       Recobrando a compostura, continuou a polir a madeira, mantendo os movimentos suaves e controlados. Recusava-se a chorar na frente de Reese.
       - Tudo bem - murmurou.
       Ele segurou-a pelos braos e virou-a, forando-a a encar-lo. - Pare de dizer "tudo bem". No est tudo bem. No estou dizendo  o que quero dizer.
       - E por que no diz o que quer dizer?
       - Syd, no ... Eu no... - Reese suspirou. - Que coisa, Syd! Estou tentando pedir desculpas. Voc tinha todo o direito de ficar brava por Boomer destruir 
suas flores. Eu nunca deveria ter feito aquela aposta.
       - E por que fez?
       Syd forou-se a se concentrar no surpreendente pedido de desculpas dele, recusando-se a pensar no toque das mos msculas em seus braos e no que acontecera 
da ltima vez que haviam ficado to prximos um do outro.
       - No sei - Reese respondeu. - Talvez pelo modo como voc entrou na taverna, o jeito como olhou para mim com ar de arrogncia, dando um ultimato. Eu tinha 
de fazer alguma coisa.
       Syd ergueu as sobrancelhas, sarcstica. - E mesmo?
       - Viu? Est sendo arrogante mais uma vez - Reese observou, sorrindo. - Se posso admitir que sou um idiota, voc ao menos pode admitir que  esnobe.
       - No sou esnobe.
       Foi a vez de Reese erguer as sobrancelhas, fitando-a com ar de dvida.
       - Bem, talvez eu parea esnobe - ela concedeu. - Mas  que sou muito consciente das coisas.
       - Ora, Syd...
       - Oh, est bem! - Syd admitiu. - Talvez, s vezes, minhas expectativas sejam um tanto altas. Talvez, s vezes, eu seja esnobe. Pronto. Est contente?
       -  um comeo. - Ele sorriu e pousou as mos nos ombros dela. - Eu tambm queria ver voc relaxar.
       - Talvez eu no queira relaxar.
       Se relaxasse naquele momento, da maneira como Reese a tocava, ela passaria os braos ao redor pescoo dele e o beijaria na boca, ardorosamente.
       - Talvez eu goste de ser do jeito que sou - comentou. - E, talvez, voc goste de ser do jeito que .
       - E de que jeito eu sou?
       "Voc  sexy, lindo, musculoso", ela pensou e, quase inconscientemente, aproximou-se dele. "Pare com isso!"
       - Frvolo - respondeu. Reese riu.
       ? Eu no sou frvolo, Syd. Sou espontneo. Voc devia tentar ser espontnea, de vez em quando.
       Syd teve de se esforar bastante para manter a ateno nas palavras dele, no no modo como os dedos longos massageavam a pele de seus braos.
       - Com certeza esqueceu-se de segunda-feira - falou. - Se aquilo no foi espontaneidade, ento no sei o que foi. - No esqueci nada. Na verdade, me lembro 
muito bem de tudo. De cada detalhe.
       Quando os olhos verdes pousaram em sua boca, Syd teve a sensao de que no conseguiria mais respirar.
       - Aquilo... foi um... erro. Reese, eu... ns... - Ficamos loucos?
       Ela no teve como conter um sorriso.
       - Algo no gnero - concordou. - Foi bom e tudo o mais, mas quero que saiba que foi uma atrao momentnea. No se preocupe com isso.
       - Sabe, Syd, no acredito no que est dizendo. Foi muito mais do que bom, querida. Ns dois estvamos ardendo de desejo. Se seu av no tivesse aparecido, 
voc logo estaria na minha cama, implorando por mais.
       Syd sentiu que corava. Tinha de admitir que ele estava certo. Abriu a boca para protestar, s que Reese pousou a mo em sua nuca, aproximando o rosto.
       - Continue negando - ele disse. - Diga mais uma vez que foi uma atrao momentnea.
       Syd fechou a boca. Estava sendo desafiada, mas sabia o que aconteceria, se Reese a beijasse de novo. De que modo aquilo acabaria. E ela no podia ir em frente. 
No tinha coragem. Livrou-se das mos dele e levantou-se.
       - Est certo - falou. - Admito. Foi mais do que bom. Mas no vai acontecer novamente. Sexo  algo especial, para mim. Para voc, pelo jeito,  algo to ftil 
como trocar de roupa.
       Reese ergueu-se, e o desejo que ela vira nos olhos dele havia pouco, transformara-se em raiva. Sabia que fora longe demais. Devia pedir desculpas, mas daquele 
jeito seria mais fcil, pois ele iria embora.
       - Pense o que quiser, Syd, mas, se acredita em toda essa baboseira, ter de passar muitas noites sozinha.
       Ela sentiu lgrimas nos olhos ao v-lo virar-se e caminhar na direo da porta.
       - Reese...
       Ele parou, mas no se virou.
       - No h razo para no sermos amigos - ela falou. - Se precisar de ajuda na taverna,  s me chamar.
       - Obrigado, Syd, mas isso no ser necessrio - ele assegurou.
       Deu dois passos, mas parou de novo ao ouvir Syd cham-lo mais uma vez.
       - Obrigada - ela agradeceu. - Pelas flores.
       Ele fez um gesto afirmativo com a cabea e olhou por sobre o ombro.
       - Quase esqueci uma coisa - disse. - Minha irm quer que voc ligue para ela.  algo sobre o cardpio da festa para Melanie e Gabe.
       Saiu antes que Syd pudesse pronunciar uma s palavra.
       

     
     Captulo 7
       
       
       Os eventos, na famlia Sinclair, sempre eram barulhentos, e a festa, naquele sbado  noite, no fugiu  regra. Todos estavam esperando na taverna, quando 
Gabe e Melanie apareceram para o que pensaram ser apenas uma reunio de famlia para jogar conversa fora, tomar cerveja e comer pizza. Os dois no esperavam uma 
elegante festa na sala de jantar privativa, que inclua velas, rosas brancas e comida francesa, preparada e servida por Syd Taylor.
       Como a taverna estava aberta aos fregueses, Reese ficava um pouco com a famlia, depois voltava para trs do balco pois o estabelecimento estava lotado. 
Ele remanejara os dias de folga dos funcionrios e, naquele dia, estava com todos ali presentes, mas precisava ajudar seu barman, Jiminy. At o momento, a noite 
vinha transcorrendo sem crises ou problemas que exigissem sua ateno.
       A menos que colocasse Syd numa daquelas duas categorias. Crise, no.
       Problema, sim.
       Reese estava furioso, quando sara do restaurante dela, havia dois dias. No que soubesse o que desejava de Syd, ou onde a inesperada atrao entre eles terminaria. 
Mas no gostara dos comentrios sobre sua moral, ou melhor, de acordo com ela, falta de moral. Tinha namorado muitas mulheres, mas isso no significava que no tinha 
escrpulos.
       "Essa mulher me deixa irritado", comentou consigo mesmo. Enquanto enchia uma caneca com cerveja para entregar a Judy, uma de suas garonetes, observou Syd 
sair apressadamente da cozinha, carregando uma bandeja com pudim de po enfeitado com uvas passas. J que a cozinha do bistr no estava totalmente pronta, at que 
o forno fosse calibrado, ela precisara usar a de Reese para preparar o jantar festivo. Quando ela aparecera no dia anterior, durante a hora de almoo, para perguntar 
a ele se concordava, ele dissera "claro", ento voltara rapidamente a ateno para os clientes sedentos do meio-dia.
       Syd, porm, permanecera no mesmo lugar, com os ombros retos e o queixo levemente erguido, como se tivesse algo para dizer.
       "Bem, j dissemos muita coisa um para o outro", ele tinha pensado. "Mais do que o suficiente. No vou gastar meu tempo pensando em Syd Taylor, noite e dia."
       Lembrando-se de como a pele dela era macia, imaginando como seria soltar aqueles cabelos sedosos, o que ela faria, quando ele deslizasse as mos por baixo 
de sua blusa e cobrisse os seios fartos, ele se distraiu completamente.
       - Acho que j est bem cheio - Judy avisou, hesitante. - O qu?
       Reese voltou  realidade, olhou para a garonete e percebeu que ela estava falando com ele. A moa gesticulou com a cabea na direo da caneca que ele estava 
enchendo. A cerveja estava transbordando.
       - Oh, droga... - ele murmurou, fechando a vlvula da mquina e pegando uma toalha.
       Movimentando a cabea negativamente, Judy jogou fora o excesso de cerveja e colocou a caneca na bandeja, junto com as outras quatro, j cheias, ento foi 
para a mesa dos pedreiros que trabalhavam na Sinclair Construes.
       Olhando na direo da porta da cozinha, Reese viu Syd entrar l de novo. Admirou o suave rebolado dos quadris arredondados. Ento, segurando a porta de vaivm, 
ela se virou e olhou para ele rapidamente. Vinha as faces vermelhas, e havia um brilho intenso nos olhos azuis. Ela parecia que tinha sido beijada, mas aquela expresso 
de alegria e prazer devia-se ao fato de Carla t-la contratado para preparar e servir o jantar da festa para Gabe e Melanie. Ele no via motivo para tanto prazer, 
e no entendia por que Carla contratara Syd. Eles poderiam servir pizza ou hambrgueres, ou o famoso chilli de Corky. Por que comida francesa?
       Ento provara o ravili de lagosta e camaro ao molho de tomate. Delicioso. Tambm provara o frango com molho de champignon. Maravilhoso.
       Ela sabe cozinhar, pensara, surpreso.
       Talvez, afinal, Syd no fosse uma garota rica e entediada que achava que seria divertido ser dona de restaurante.
       Ele j vira como ela trabalhava duro e notara que era perseverante, daquelas mulheres que entregavam-se de corpo e alma ao que faziam.
       Syd Taylor merecia sua admirao, mas com certeza no precisava dela bagunando sua vida. Ele vivia muito bem, antes de fazer aquela aposta doida no jogo 
de pquer. Depois, tudo ficara tumultuado. Agora, fazia dois dias que ela no trabalhava mais na taverna. E, embora Reese sentisse sua falta, gostava de ver que 
as coisas haviam voltado a ser calmas e simples.
       - Ei, Reese! - Com uma caneca com cerveja em uma das mos, Rhonda Waters foi para trs do balco do bar e parou ao lado de Reese. - Por onde andou?
       - Por a, mas agora estou bem aqui a seu lado, docinho. - Tem um tempinho para mim, querido? - Mary Lou Simpson, com seus cabelos to vermelhos quanto um 
tomate, surgiu ao lado de Rhonda. - Devia estar envergonhado! Eu votei em voc, no concurso de bumbum masculino mais gostoso de Bloomfield. Podia ao menos mostrar 
alguma gratido.
       Reese sempre achara que ganhar o concurso fora divertido, mas, de repente, aquilo perdera a graa. Na verdade, estava comeando a incomod-lo. Forou um sorriso 
e desejou que Jimmy, que fora descansar, voltasse logo.
       - Ento, Reese, quando vamos sair para dar uma volta de carro? - Mary Lou indagou, cheia de charme. - Comprei um novo conversvel Camaro, e ainda est bastante 
quente para andar com a capota abaixada.         
       - Bem, Mary Lou, assim que eu tiver o quadro de funcionrios completo, talvez conversemos a respeito.
       "Ou no", completou mentalmente. "Definitivamente, no." - Mal posso esperar, querido.
       Reese olhou ao redor, procurando por algum sinal de Jimmy. - Ouvi dizer que voc andou se entendendo com Syd Taylor - Rhonda disse e bebeu um gole de cerveja. 
- Aconteceu alguma coisa entre vocs?
       - No seja ridcula! - Mary Lou repreendeu, rindo. - Por que Reese sairia com algum como Syd, a rainha dos hunos? Por que um homem, qualquer um, quereria 
ficar com ela?
       - E verdade. - Rhonda moveu a cabea afirmativamente. - At Bobby percebeu o erro que cometeria e no apareceu no casamento.
       - Ei, esperem um pouco - Reese aparteou, irado. - Como vocs so venenosas!
       Naquele momento, Syd apareceu na frente do balco. Ele estivera to distrado, ouvindo os comentrios ferinos de Rhonda e Mary Lou, que no percebera sua 
aproximao. Teria ela ouvidos duas?
       - Ol Rhonda, Mary Lou - Syd cumprimentou.
       Reese percebeu, pelo tom de voz, que Syd com certeza ouviu a conversa.
       Rhonda e Mary Lou resmungaram algo em resposta ao cumprimento de Syd, parecendo constrangidas.
       "Bem feito para vocs duas", Reese comentou consigo mesmo. - Uma pena, o que aconteceu no seu trabalho, Mary Lou - Syd disse com um olhar frio para a ruiva. 
- Tenho certeza de que encontrar outro patro que aprecie suas qualificaes, tanto quanto John Sweeney.
       Todos na cidade sabiam que Mary Lou dormia com o proprietrio da Sweeney Materiais Esportivos. Todos, menos a sra. Sweeney, claro. At ela flagrar os dois 
no escritrio da loja, nus e numa posio muito comprometedora. No dia seguinte, houvera um remanejamento de empregados, e Colleen Sweeney passou a trabalhar na 
loja em perodo integral, para vigiar o marido. E Mary Lou fora demitida.
       Syd voltou sua ateno para Rhonda.
       - E sinto muito com relao a voc e Mike - declarou. Rhonda estreitou os olhos.
       - Sente muito pelo qu? - questionou.
       - Por vocs terem desmanchado o namoro. Deve ter sido difcil para voc.
       - Ele conseguiu um trabalho em Ridgeway, s isso. Foi por isso que partiu. Tem trabalhado o tempo todo e... - Rhonda parou de falar repentinamente, e seus 
olhos castanhos encheram-se de dvida. - Bem, preciso ir, Syd. Foi bom ver voc. Foi at a cabine de telefone pblico, seguida por Mary Lou. Reese olhou para Syd 
com uma mistura de admirao e surpresa pelo modo como ela lidara com as duas mulheres.
       - Sua famlia quer se despedir de voc - Syd informou. - Obrigado.
       Ele no tinha certeza do que dizer.
       Sabia que Syd estava magoada, mas tambm que no demonstraria seus sentimentos, que agiria como se nada tivesse acontecido.
       - Obrigada por permitir que eu usasse a cozinha da taverna, Reese - ela agradeceu com tamanha educao, que o irritou. - Depois de juntar minhas coisas, tambm 
vou embora.
       - Tudo bem.
       "No, no est nada bem", ele desmentiu, falando consigo mesmo. "Diabos, Syd, por que no mostra sua fria? No xinga, grita, ou bate em algum?"
       Observou-a afastar-se, voltando para a cozinha.
       "No vou perder meu tempo me preocupando com Syd", comentou consigo mesmo. "Ela sabe se cuidar. Deixou isso bem claro. Para mim, Syd Taylor  uma pgina virada."
       Syd sabia que Reese observava-a e estava ciente de que ele esperara que ela reagisse, aps ouvir os comentrios cruis de Mary Lou e Rhonda. Mas aprendera, 
havia muito tempo, a esconder seus sentimentos, a fingir que tudo estava bem, quando no estava, e a s liberar suas emoes quando estava sozinha, para que ningum 
visse sua perturbao.
       Caminhou com passos firmes, embora o aperto que sentia no peito fosse quase insuportvel, entrou na cozinha, pegou seu casaco do cabide e saiu pela porta 
dos fundos. '0 ar da noite estava frio. Somente a luz da lua iluminava o caminho. Ela sentou-se num banco do pequeno jardim entre  taverna e a casa de Reese, cobriu 
as faces com as mos trmulas e deixou que as lgrimas rolassem.
       Syd, a rainha dos hunos.
       Ela sempre estivera ciente do que as pessoas pensavam a seu respeito, sabia que no era querida, porm, ouvir aquelas palavras em alto e bom som confirmara 
o que sempre achara: Ningum nunca lhe daria amor. Seu pai no a amara, a me tambm no, muito menos Bobby. E, com certeza, Reese jamais a amaria.
       As palavras de Mary Lou e Rhonda, embora cruis, eram verdadeiras. Syd chorou ainda mais copiosamente, ao relembr-las. De sbito, sentiu que Boomer subira 
no banco. Ele lhe uma lambida quente na mo, e ela afagou a cabea peluda, sorrindo ao pensar que Boomer era o nico que parecia gostar dela.
       Aquela fora uma noite maravilhosa, at certo ponto. Preparar o jantar, servi-lo, ver a expresso de prazer no rosto de todos, quando experimentavam os pratos, 
tudo aquilo lhe dera uma enorme satisfao. At ouvira Reese gemer baixinho, enlevado, quando provara o ravili de lagosta e camaro com molho de tomate.
       Ento, escolhera a hora errada para ir avisar Reese que a famlia dele queria despedir-se, e ouvira aquelas palavras horrveis de Mary Lou e Rhonda.
       - Syd?
       Ela ouviu seu nome e sentiu algum pousar a mo em seu ombro.
       Oh, no! Reese, no, pensou, aflita. Qualquer um, menos Reese.
       - V embora - ordenou.
       Ele no foi. Sentou-se no banco e envolveu-lhe os ombros com um brao.
       - Voc est chorando - murmurou, afagando-lhe o rosto. Humilhada, Syd olhou para o outro lado.
       - No, no estou - negou. - Nunca choro. Chorar  pattico, coisa de mulheres vulnerveis.
       Reese riu e abraou-a.
       - Syd, voc est vulnervel.
       Ela negou, meneando a cabea, ento pousou a face no ombro largo e deixou as lgrimas carem novamente.
       - Est se sentindo melhor? - ele indagou.
       Syd respondeu com um gesto afirmativo de cabea e tentou sentar-se direito, mas Reese continuou a apert-la contra seu corpo.
       - Fique aqui mais um pouco - ele pediu carinhosamente. S mais um pouquinho, ela prometeu a si mesma e permitiu-se relaxar contra o peito dele.
       Ficaram calados por um bom tempo, apenas ouvindo os sons da noite e a respirao de Boomer. Apesar de seu embarao, ela no conseguia recordar quando sentira 
tamanha paz e tranqilidade.
       - Havia umas cento e cinqenta pessoas na igreja - disse por fim, quebrando o silncio. - Minha dama de honra tinha acabado de pr o vu em minha cabea. 
Olhamos no espelho e sorrimos, satisfeitas com o que vimos.
       Fez uma pausa, suspirando.
       - Foi quando o padre apareceu. Eu soube imediatamente que havia algo errado. Achei que talvez Bobby estivesse doente, ou tivesse sofrido um acidente. - Riu 
com amargura. - O padre entregou um bilhete a minha dama de honra. Era de Bobby. Ele dizia que lamentava, mas que no podia casar-se comigo.
       - Nunca gostei daquele sujeito. Um canalha.
       - Achei que minha vida tinha acabado, que no poderia encarar as pessoas, sabendo o que elas sussurravam s minhas costas. - Syd fechou os olhos e sentiu 
uma lgrima rolar. - Fiquei muito magoada, Reese.
       - Eu sei, querida.
       - Quase tanto quanto fiquei, quando meu pai saiu de casa e nunca mais voltou. Quase tanto quanto ainda fico, quando as pessoas me chamam de Syd, a rainha 
dos hunos.
       Ela estremeceu, e Reese enxugou com um dedo a lgrima que rolava pela face acetinada.
       - Mary Lou e Rhonda so mulheres que no tm nada na cabea. Elas no deviam nem olhar para voc.
       - Sei - murmurou Syd com ceticismo.
       -  verdade, meu bem. Voc tem algo que ningum pode comprar, nem fingir que tem. Voc  corajosa, ntegra e enrgica. E tem muita classe.
       Syd pestanejou e respirou fundo. Reese a tinha chamado de "querida", de "meu bem"? Havia dito aquelas palavras gentis a respeito dela? Syd fitou-o dentro 
dos olhos e,  luz da lua, viu que Reese estava dizendo a verdade. A dor que sentia transformou-se em alegria, e seu corao disparou.
       - Acho que voc  maravilhoso com as pessoas - comentou. - Sabe como faz-las relaxar, se divertir, rir. Nunca vou conseguir isso.
       - Claro que vai. - Reese prendeu uma mecha dos cabelos sedosos 'atrs da orelha dela. - Voc s precisa relaxar um pouco, Syd. No leve tudo to a srio, 
o tempo todo.
       Tudo na vida de Syd fora cuidadosamente planejado, cada passo, cada movimento. Como conseguiria relaxar e no levar tudo a srio? Queria poder agir daquela 
maneira. No ter que analisar cada passo, apenas aproveitar o momento e se divertir. Como naquele momento, apreciar o toque da mo clida em sua orelha e o brao 
forte ao redor de sua cintura. Mas desejava mais, muito mais.
       No sabia como dizer a Reese o que queria, porm deixou que seu instinto a guiasse. Tocou-o no rosto, timidamente. - Voc tem razo - murmurou.
       Reese pegou a mo dela, levou-a at os lbios e beijou-a. - Tenho razo sobre o qu? - indagou.
       - Sobre o que disse, quando meu av nos interrompeu naquele dia, no corredor de seu escritrio. Se ele no tivesse aparecido, eu iria para a cama com voc.
       Reese enrijeceu o corpo. Syd sentiu e receou que ele no estivesse sentindo o que ela sentia. Se fosse rejeitada, no suportaria. Mas percebeu a intensidade 
dos olhos verdes, e seu corao bateu mais forte. Aconchegou seu corpo contra o dele e aproximou o rosto, oferecendo os lbios.
       - Syd, talvez essa no seja uma boa hora...
       Ela se enganara. Sentiu um no na garganta, mas forou um sorriso.
       - Claro que no  uma boa hora - concordou, perdendo as esperanas. - Voc est certo. Eu... no sei o que estava pensando. Desculpe-me.
       - Diabos, Syd, no me olhe assim! Voc est muito fragilizada, neste momento, e talvez no esteja pensando com clareza.
       Ela ousou pr a mo no peito dele e sentiu as batidas frenticas do corao. Combinavam com as batidas do seu.
       - Nunca pensei com tanta clareza - disse docemente. - Eu sei o que quero. Voc sabe o que quer, Reese?
       - Eu quero voc, Syd.
       Reese beijou-a com ardor. "Quero voc". Syd tinha esperado a vida inteira para ouvir aquelas palavras. Sabia que seria apenas sexo, mas, mesmo assim, no 
importava. Naquele momento, era a mulher mais feliz do mundo. Enlaou o pescoo largo com os braos e aconchegou-se contra o peito musculoso, no querendo que o 
beijo terminasse. Sentia-se segura e protegida nos braos de Reese, como se estivesse na segurana de seu lar. No no lar em que crescera, que afinal nunca fora 
um lar, mas um lar de verdade, um lugar onde se sentisse amada e aceita.
       Conscientizar-se daquilo amedrontou-a, e as implicaes quase a fizeram afastar-se de Reese, mas ela vinha sendo covarde havia muito tempo. No permitiria 
que aquele momento acabasse. No mais sentiria medo de entregar-se ao prazer.
       S daquela vez, se permitiria apenas sentir, sem lgica, sem pensar em razes, sem argumentos. Sorriu e pousou a cabea no ombro dele.
       Reese ergueu-a nos braos e levou-a para sua casa. Pensou em lev-la para a taverna e mostrar para todos que Syd Taylor era sua, mas no queria que a vissem 
com os olhos vermelhos de tanto chorar. Sentia-se dono de Syd e estava furioso com Mary Lou e Rhonda por terem feito aqueles comentrios maldosos.
       Fora um grande idiota em no perceber como aquelas duas mulheres tinham magoado Syd. Achara que ningum era capaz de magoar Syd Taylor. Apesar de toda aquela 
pose, porm, ele era delicada, frgil e carente.
       Devia ter desconfiado que algo estava errado, quando Gabe disse que Syd no tinha voltado  sala de jantar privativa para se despedir. Depois que sua famlia 
fora embora, ele sara para procur-la. Ao sair da taverna e encontr-la chorando, fora como se algum tivesse cravado uma faca em seu corao. Uma reao estranha 
para ele, que nunca se envolvera emocionalmente com uma mulher.
       No pequeno alpendre da casa, colocou Syd no cho e abriu a porta.
       - Syd, tem certeza?
       Ela sorriu e beijou-o nos lbios. Reese ergueu-a nos braos mais uma vez, entrou, fechou a porta com um p e caminhou para o quarto.
       

     
     
     Captulo 8
       
       
       Syd nunca imaginara que ser espontnea fosse to maravilhoso, to libertador, to estimulante. Reese colocou-a na cama e deitou-se a seu lado. Ambos ardiam 
de desejo, mas ele hesitava. Ela sorriu e beijou os lbios dele.
       - No vai fazer com que eu implore, vai, Reese Sinclair? Faa amor comigo, por favor! Faa amor comigo.
       Reese beijou-lhe o pescoo. Syd sentiu-o soltar os botes de sua blusa, um a um. O fecho do suti era na frente, e ele abriu-o com os dentes, cobrindo um 
dos mamilos com a boca. Ela gemeu de prazer. As mos msculas, correndo por seu corpo, eram gentis e habilidosas.
       - Reese... por favor... - Voc  to linda. - Obrigada...
       Nem naquele momento ela conseguia deixar de lado as boas maneiras. Achou que as palavras dele faziam parte da tal "conversa de travesseiro" de que ouvira 
falar, mas da qual nunca participara. "Voc  linda". "Voc  nica". "Eu te amo". Coisas que as pessoas diziam quando faziam amor, embora no tivessem um real significado.
       Reese moveu a cabea negativamente e suspirou.
       - No acredita em mim? - indagou. - Posso ver isso em seus olhos. Quero que olhe para mim, Syd. Olhe nos meus olhos.
       Syd fitou-o.
       - Voc  linda - ele falou. - Pode agir feito louca de vez em quando, e me deixar confuso, mas  a mulher mais bonita que j vi.
       Ela percebeu que as palavras eram verdadeiras. Pestanejou diversas vezes para conter as lgrimas. No queria estragar aquele momento. O que Reese dissera 
dera-lhe coragem e pusera fim  ltima gota de inibio que existia nela.
       Pousando as mos no peito dele, deitou-o e rolou para cima de seu corpo. A surpresa nos olhos verdes deixou Syd radiante e com uma sbita sensao de poder. 
Sentou-se sobre as coxas dele, tirou a blusa, o suti, e jogou-os no cho.
       - Essas roupas esto atrapalhando - Reese comentou, referindo-se  saia e  meia-cala de seda que ela usava. - No quer tir-las para mim?
       - No.
       Syd ergueu os braos e soltou os cabelos.
       Reese adorou. Queria mais. Quis pux-la para si, porm ela meneou a cabea negativamente e baixou os braos dele.
       - Voc est com muita roupa - ela falou.
       Abriu os botes da camisa dele, deslizou as mos pelo peito  poderoso, descendo-as para o abdome definido, parando na cintura da cala jeans. Fitou os olhos 
verdes, sorriu e abriu o boto e o zper da cala. A "certinha" Syd Taylor tinha desaparecido. Reese estava diante de uma sereia, de uma tentao. Mas ainda havia 
inocncia nos olhos azuis, o que o deixava excitado, mais do que ficara com qualquer outra mulher.
       Ela se inclinou para a frente e beijou-lhe o peito, deslizando os lbios languidamente. Reese gemeu de prazer e, quando no agentou mais, pousou as mos 
nos ombros dela e virou-a, jogando-a na cama e deitando-se sobre ela. Syd foi pega de surpresa, soltou um grito, mas logo abraou-o pelo pescoo. Ele beijou-a no 
corpo todo, enquanto tirava a cala e os sapatos. Depois, desceu a saia dela pelas pernas bem torneadas junto com a meia-cala e a calcinha de renda. Por fim, tirou-lhe 
os sapatos de salto alto, jogando tudo no cho.
       Pele contra pele.
       Reese beijou-a na testa, nas faces, no pescoo. Syd gemia e murmurava o nome dele, enquanto suas mos exploravam o corpo msculo, excitando-o tanto quanto 
ele a excitava. Quando ambos estavam ardendo de desejo, quando Reese achou que morreria se esperasse mais um minuto, ele a penetrou. Syd cravou as unhas nos ombros 
largos e soltou um gemido de dor. Ele parou no mesmo instante.
       - Syd...
       Ela nunca fizera sexo. Ainda era virgem. - No pare, Reese. Por favor, no pare. - Mas...
       - No importa.
       Syd enlaou a cintura dele com as pernas, confundindo-o, excitando-o.
       - Claro que importa - Reese falou. - Voc nunca... Voc devia ter...
       Ela o beijou na boca, impedindo-o de falar, impedindo que qualquer pensamento racional a dominasse. Movimentou-se lentamente, dando o ritmo, ento ele tomou 
o controle da situao. O ritmo aumentou, tornou-se frentico, e o xtase explodiu, roubando-lhes a conscincia.
       Syd achou que nunca mais seria capaz de movimentar-se de novo. Poderia ficar deitada ali para sempre, naquela grande e maravilhosa cama, com os braos e pernas 
enroscados nos de Reese, ouvindo o som das batidas do corao dele. Querendo que aquele momento durasse pela eternidade, fechou os olhos e permaneceu imvel. Mesmo 
com o peso do corpo de Reese sobre o seu, sentia-se como se estivesse flutuando.
       Agora sabia o real significado de "glorioso".
       - Sou muito pesado - ele falou, rolando para o lado. Devagar e com relutncia, Syd abriu os olhos e fitou-o. - Eu machuquei voc? - Reese indagou.
       Ela movimentou a cabea negativamente e sorriu. -  sempre assim to maravilhoso? - perguntou.
       No se importava, se estava parecendo muito ingnua. Depois de uma experincia como aquela, o que mais importava? Nada.
       Ele sorriu.
       - No, Syd. No  sempre assim. O sorriso sumiu dos lbios dela.
       - Quer dizer que  melhor, ou pior? - Syd indagou. Reese riu.
       - No d para ser melhor do que isso - respondeu.
       -  mesmo? Quero dizer, s por que foi incrvel para mim, no significa que...
       - Fique de boca fechada, por favor.
       Ele cobriu os lbios dela com os seus, num beijo caloroso. Syd perguntou-se se seria possvel repetir aquela experincia to depressa, enquanto deliciava-se 
com a massagem suave que ele fazia em seus seios.
       Era possvel, sim. E ela deixou-se entrar mais uma vez naquele caleidoscpio de sensaes, no conseguindo se lembrar de quando se sentira to feliz.
       Ainda estava escuro, quando Reese acordou. Passou a mo no rosto, pensou em Syd e sorriu. Virou-se para acarici-la e surpreendeu-se as no v-la deitada 
a seu lado. Franziu a testa, sentou-se na cama e acendeu a luz do abajur. Viu-a vestida, ajoelhada ao lado da cama.
       - O que est fazendo? - perguntou.
       O relgio marcava trs horas da madrugada. Eles deviam ter adormecido uma hora atrs. Reese, pelo menos, adormecera, mas, pelo jeito, Syd no tinha dormido 
nem um pouco.
       - Desculpe, se acordei voc - ela pediu, pegando um sapato do cho.
       - Perguntei o que voc est fazendo - Reese repetiu, irritado por v-Ia vestida, fora da cama, no deitada a seu lado, como seria de esperar.
       - Bem, j  tarde e eu... bem... eu no posso... 
       - Passar a noite aqui?
       Syd moveu a cabea afirmativamente, evitando olhar para Reese. Ele alcanou-a e puxou-a de volta para a cama, deitando-se em cima dela.
       - Fizemos amor, e agora voc vai embora - murmurou, notando que o rosto dela corava. - Syd Taylor, voc no tem corao.
       - Desculpe-me. Eu no tinha certeza... No sei o que fazer. - Syd...
       "Ela  to tentadora", Reese pensou.
       Aps fazer amor com ela quase a noite toda e ter dormido apenas uma hora, bastara olh-la para ficar excitado de novo. - Um de ns dois est com muita roupa 
- comentou.
       - Acho que sou eu - Syd disse baixinho, sorrindo.
       - Parece que teremos de recomear desde o incio. - Ele desabotoou-lhe a blusa. - Talvez isso leve algumas horas. - Promete? - ela indagou, abraando-o.
       - Prometo.
       A luz do sol entrou pela janela do quarto de Reese, acordando Syd. Ela ficou ouvindo o canto de um pssaro l fora e as batidas do corao de Reese. Enlaada 
pelos braos musculosos, observou-o dormir. Uma mecha de cabelos pretos tinha cado na testa dele, e ela lutou contra a vontade de coloc-la no lugar. Resistiu  
tentao de pressionar sua face contra a dele para sentir a barba por fazer. Lutou contra o mpeto de deslizar as mos pelos ombros largos, pelo peito e braos musculosos, 
pelo abdome reto e firme.
       Sorriu. Reese tinha um corpo esculpido em msculos, tudo nele exalava fora. Mas Syd descobrira que ele era gentil e tinha muito carinho para oferecer. Era 
um amante maravilhoso, vigoroso, mas tambm era sensvel.
       Amante. Aquela palavra no saa da mente dela. Aos vinte e seis anos de idade, Sydney Marie Taylor no era mais virgem. Ela abriu um amplo sorriso.
       - Quando uma mulher sorri assim,  porque tem algo maldoso em mente - Reese comentou.
       Assustada, Syd sentiu as faces corarem. Ficou surpresa por sentir vergonha, aps a noite que tivera com Reese, porm ficou feliz ao ver que ainda tinha lhe 
restado um pouco de bom senso e pudor.
       - No tenho nada maldoso em mente - respondeu. - Meus pensamentos so puros e simples...
       Reese rolou sobre ela e cobriu os lbios carnudos com os seus. No foi um beijo gentil, mas possessivo e intenso. Syd deslizou as mos pelas costas musculosas. 
Quando ele afastou a boca, ela fechou os olhos e murmurou:
       - Meus pensamentos so benevolentes. A sntese da bondade.
       Reese beijou-a de novo, e ela arqueou o corpo, movida por nova onda de desejo. Ele acariciou-lhe os seios, ento trocou as mos pelos lbios, sugando cada 
mamilo voluptuosamente.
       Ela no conseguia mais pensar com clareza. Comeou a balbuciar, mas palavras no faziam sentido.
       Por fim, ele parou com as carcias excitantes e beijou-a na testa e no rosto.
       - Quem diria que Syd Taylor  uma mulher to fogosa? - indagou.
       - No se esquea de imoral, maluca e... - Syd...
       O tom de voz dele era to srio, que ela teve a sensao de que seu corao parava de bater. Comeou a implorar mentalmente para que Reese esperasse um pouco 
mais, antes de dizer que o que acontecera entre eles naquela cama fora um erro.
       - Diga-me como foi que uma linda mulher como voc, chegou aos vinte e seis anos de idade sem... Bem, voc nunca... voc era...
       Ele hesitou, obviamente incerto quanto a maneira de tocar num assunto to delicado.
       - Virgem. - Ela terminou a frase, aliviada por Reese no ter dito o que ela pensara que diria, e ao mesmo- tempo indagando-se por que no se sentia humilhada 
por estar tendo aquela conversa com ele. - Namorar no  to fcil para mim quanto  para outras mulheres. - Ela deslizou o dedo indicador pelo peito dele. - E quanto 
mais eu esperava pelo homem certo, mais as coisas iam se tornando difceis.
       - Voc estava noiva, Syd.
       - Sempre achei que Bobby queria casar comigo por que eu era virgem, porque no pulei na cama dele como as outras mulheres pularam, porque minha famlia tinha 
dinheiro. Depois que ele me pediu em casamento, pensei que, se dormisse com ele, ele no mais me desejaria, com ou sem dinheiro. Queria acreditar desesperadamente 
que Bobby me amava de verdade.
       Reese decidiu que, se um dia encontrasse Bobby, daria uma surra nele.
       "Ainda bem que ele no se casou com Syd", pensou. "Ela merece algum melhor do que aquele canalha. E ainda bem que ela no dormiu com ele tambm. Ela tambm 
merece algum como... eu. Afinal, eu gosto dela, eu a respeito e admiro." E o fato de ter sido o primeiro homem a fazer amor com
       Syd tornava-a ainda mais especial. Ela o fizera sentir-se mais viril e poderoso.
       No tinha idia de como dizer aquilo a ela, porm decidiu tentar.
       - Syd...
       Ela sentou-se e puxou o lenol at a altura dos ombros. -Reese, a ltima coisa que desejo no mundo  a sua piedade. No tem de me dizer que foi ingenuidade 
minha acreditar que Bobby realmente queria se casar comigo, ou que ele me amava. Sei perfeitamente como fui idiota.
       Quando ele abriu a boca para protestar, ela pousou dois dedos em seus lbios, silenciando-o.
       - Mas essa foi a velha Syd Taylor - ela declarou com firmeza. - Sou uma nova mulher. Em duas semanas, meu restaurante vai ser inaugurado, e agora, graas 
a voc, tenho uma perspectiva diferente quanto a relacionamentos.
       - Que perspectiva  essa?
       O toque dos dedos dela em seus lbios distraiu Reese por alguns instantes, e ele no resistiu a vontade de beij-los. - Voc estava certo - Syd declarou. 
- Levo tudo muito a srio, o tempo todo. Sou analtica demais. Dessa vez aprendi a relaxar e curtir mais a vida. Divertir-me.
       Ele sorriu.
       -  isso a, garota! - exclamou, incentivando-a.
       - Perdi tanto tempo! Tenho tantas coisas novas para experimentar.
       Reese estava adorando ouvir aquelas palavras e estava disposto a ser o homem que iria ajud-la a ter essas novas experincias.
       Sorrindo, Syd espreguiou-se.
       - Eu me sinto incrvel - comentou.
       "Voc  incrvel", ele comentou consigo mesmo, observando o lenol que a cobria escorregar e expor os seios firmes.
       Ela estava muito sexy, com os cabelos desalinhados e as faces enrubescidas. Ele viu-a vestir o suti e a blusa, ainda no crendo que haviam tido uma noite 
maravilhosa.
       A primeira de muitas, pensou.
       - Viu meu outro sapato? - Syd perguntou, ajoelhando-se no cho. - Ah, achei.
       Reese a queria de volta na cama. Puxou-a e prendeu-a sob seu corpo.
       - Aonde pensa que vai? - murmurou ao ouvido dela. Syd pousou as mos nos ombros dele.
       - Para casa, bobinho - respondeu. - Est ficando tarde. Tenho de trabalhar.
       - E o que aconteceu com aquela conversa sobre curtir a vida e se divertir mais?
       Ele a beijou no pescoo, no colo, e adorou ouvir o gemido de prazer que ela deixou escapar.
       - Bem, no estava apenas me referindo a fazer amor, embora... isso com certeza tambm seja muito prazeroso - ela disse.
       - E o que voc quis dizer?
       - Na vida em geral. Curtir cada momento. Eu me preocupei a vida toda com o que as pessoas pensavam e diziam a meu respeito. Agora no me preocupo mais.
       - Muito bom.
       Reese franziu a testa, quando ela o empurrou e sentou-se na cama.
       - Voc tinha razo quanto a eu ser esnobe - Sy d admitiu, sorrindo. - Mas no sou mais. Vou conhecer pessoas diferentes e fazer coisas que nunca fiz. Ouvir 
rock. Cortar os cabelos. Comprar uma saia curta. Tomar o caf da manh na cama. Todas as coisas que eu jamais me permiti fazer.        
       "Tudo parece excelente, principalmente a parte da saia curta", Reese comentou consigo mesmo. E ela pode tomar caf comigo, aqui na minha cama, quando quiser. 
At fao e trago para ela. Mas no precisa cortar os cabelos. Gosto deles desse jeito. E, pensando bem, se ela usar saia curta, outros homens olharo para essas 
belas pernas. E eu no vou gostar. E o que ela quis dizer com conhecer pessoas diferentes?
       Antes que pudesse tirar suas dvidas, Syd saiu da cama e vestiu a saia.
       - No quero atras-lo para o trabalho, e com certeza voc no vai querer ter de explicar por que Syd Taylor saiu de sua casa de manh cedo, com as mesmas 
roupas_ de ontem - ela falou.
       Reese franziu a testa, confuso.
       - Voc acabou de dizer que no liga para o que as pessoas pensam. - observou.
       Ela calou um sapato.
       - No ligo para o que elas pensam a meu respeito, mas no quero que voc seja alvo de piadinhas por minha causa - declarou.
       ? E voc acha que me importo com o que as pessoas pensam? - Ele meneou a cabea negativamente e sentou-se na cama, exasperado. - Se algum ousar fazer uma 
piadinha, quebro essa pessoa ao meio.
       Syd fitou-o com lgrimas nos olhos.
       - Foi a coisa mais gentil que algum j me disse - falou, aproximou-se dele e beijou-o na boca. - Obrigada pela noite mais maravilhosa de minha vida. Voc 
foi gentil, honesto e incrivelmente doce. Me fez sentir especial, e jamais esquecerei isso.
       "Gentil, honesto e doce? Nunca me esquecer? Do que ela est falando?", Reese indagou-se. "Parece que est se despedindo de mim!"
       Estreitou os olhos, desconfiado. - Est me dispensando, Syd?
       - Claro que no. - Ela calou o outro sapato. - Mas ambos somos adultos, e no quero que voc pense que tenho alguma expectativa quanto a um relacionamento. 
O que aconteceu ontem  noite, aconteceu. No quero me sentir... responsvel.
       - Est dizendo que quer que sejamos apenas amigos?  isso?
       - .
       Reese no acreditava no que estava ouvindo. - Claro, Syd, seremos apenas amigos.
       - Muito bom. Nos prximos dias estarei ocupada com a inaugurao do meu restaurante, ento no o verei por um tempo.
       - Tudo bem.
       - Tchau, Reese. - Tchau, Syd.
       Ela se curvou e beijou-o nas duas faces. - Syd?
       - O qu?
       - Volte para a cama.
       Reese viu alvio nos olhos azuis, e riu quando ela se atirou em seus braos.
       - Achei que voc no fosse pedir - Syd murmurou, antes que ele a calasse com um beijo intenso.
       

     
     
     Captulo 9
       
       
       - Oh, Lucian,  lindo!
       SYd passou a mo em um dos novos balces com tampo de granito, que Lucian tinha acabado de, instalar. O mvel, quer seria usado como bar, tambm servia para 
separar a rea de almoo e jantar do resto do salo. Se as mesas estivessem todas ocupadas, os fregueses poderiam esperar ali no bar e tomar drinques at que uma 
delas vagasse.
       - E  forte o bastante para agentar um elefante tambm - Lucian declarou, dando um ltimo aperto com a chave de fenda num parafuso.
       - Acho que no terei elefantes como fregueses.
       Lucian guardou a chave de fenda na caixa de ferramentas. - Acho que no - concordou. - Mas no se esquea dos dois filhos adolescentes de Henry Offman. Eu 
no iria querer que aqueles dois garotos fossem a um restaurante meu. Dizem que eles colocaram a loja de Barney abaixo. Acabaram com tudo. No faa nenhuma promoo 
como "pague tanto e coma quanto quiser", seno voc vai  falncia com aqueles dois.
       Rindo, Syd meneou a cabea negativamente e juntou-se a ele atrs do balco.
       - Quer ser o primeiro fregus a tomar capuccino? - indagou. - Ou um caf expresso?
       - O expresso  caf preto puro? 
       - .
       - Prefiro um expresso, ento. - Lucian encostou-se no balco e observou Syd lidar com a cafeteira. - Parece que voc est pronta para a inaugurao.
       - Daqui a seis dias, quatro horas e trinta e dois minutos. Ela entregou a ele uma xcara de caf. Lucian admirou-se com o tamanho da xcara, achou-a uma miniatura, 
e tomou um gole do lquido escuro e quente.
       - Nada mau, Syd. A propsito, gostei dos seus cabelos assim. - Obrigada. - Ela sentiu as faces corarem. - Cortei hoje de manh.
       O telefone celular de Lucian tocou. Enquanto ele conversava com um pedreiro que estava numa obra realizada pela Sinclair Construes nos arredores da cidade, 
Syd olhou para 6 grande espelho atrs da cafeteira. Ela ainda no acreditava que aquela mulher refletida no espelho era Syd Taylor.
       Levara uma semana inteira para criar coragem para ir ao salo de beleza e cortar os cabelos. Tocou a ponta das mechas curtas. Frederico insistira em cortar 
naquele comprimento, alegando que era fashion e combinava com o rosto dela. Ele tambm a convencera a fazer luzes, e enquanto ela esperava o tempo para o produto 
clarear alguns fios, aqui e ali, fora atendida por uma esteticista que cobrira seu rosto com uma mscara de mamo e vitamina e que, depois de retirar o produto, 
aplicara uma maquilagem bem suave. Quando os cabelos foram lavados e secos, ela parecia e sentia-se outra mulher.
       Marie batera palmas. Frederico a chamara de Sexy Syd. Ela sorrira. Ningum a chamara de sexy antes. Gostara. Do salo de beleza fora a uma loja comprar a 
saia curta e outras peas de roupa que sempre admirara nas outras mulheres, mas nunca tivera coragem de usar.
       Mal podia esperar para Reese v-Ia com elas, ou melhor, sem elas.
       Sentiu um forte calor no corpo ao recordar a primeira noite de amor que tivera com Reese, as mos viris percorrendo seu corpo, o toque sensual dos lbios 
dele. Tinham se visto diversas vezes, desde aquela noite. Na segunda-feira, quando a taverna ficava fechada, eles foram at o lago, onde Reese contara que ele e 
os irmos iam l para apostar corrida de carros e tomar cerveja. S de pensar em como fora gostoso e excitante fazer amor com Reese  beira do lago fez, com que 
o corao dela batesse mais forte. Nunca imaginara que fosse capaz de fazer amor num lugar pblico, no meio de rvores, com o cu por testemunha e um amante como 
Reese Sinclair.
       Uma mulher no podia desejar amante mais maravilhoso, generoso e habilidoso. Num minuto ele era gentil, no minuto seguinte era impetuoso e selvagem. Os ltimos 
dias haviam sido os mais excitantes da vida de Syd. Ele fora  casa dela, uma noite, depois de fechar a taverna, levando uma garrafa de vinho. Eles tomaram o vinho 
na cama. E na tarde do dia anterior, Reese a levara para a sua. Syd largara a receita de croissants que estivera preparando e ficara excitada em saber que Reese 
queria tanto fazer amor que no conseguira esperar at a noite.
       Mas ele no queria fazer amor. Queria mostrar-lhe seu recm-chegado e precioso exemplar da primeira edio do livro de Ernest Hemingway Por Quem os Sinos 
Dobram.
       O prazer e a alegria na expresso de Reese fizeram o corao de Syd bater acelerado. Havia tanta coisa em Reese Sinclair que ela, jamais imaginara, e o fato 
de ele querer dividir com ela algo to especial, a fez ficar com os olhos cheios de lgrimas.
       Ento, fora ela quem o beijara, tirara-lhe a roupa e o levara para a cama, assolada por uma incrvel necessidade de fazer amor com ele, naquele exato momento. 
E isso surpreendera ela prpria.
       Suspirando, ligou a cafeteira e serviu-se de uma xcara de capuccino. Sentia-se uma idiota por acreditar que pudesse ter um futuro ao lado de Reese. Entendia 
que o relacionamento deles, ou fosse l como fosse chamado o que tinham, no era permanente. Eles estavam... namorando. Aproveitando a companhia um do outro. Viviam 
um dia de cada vez. Nada de compromissos, nada de planos ou explicaes.
       E, se ela comeasse a sonhar, pensando, mesmo que por um milsimo de segundo, que podia haver mais do que aquilo, tudo o que tinha de fazer era recordar que 
j fora abandonada na igreja uma vez. O olhar de d de cada convidado doera demais, todos pareciam saber que Bobby mentira, que fizera falsas promessas, que dissera 
que amava Syd e a desejava como esposa por piedade ou interessado na fortuna dos Howland-Taylor. Ela no queria ver aqueles olhares de "comiserao" de novo. No 
seria tola novamente. Daquela vez seria bem realista. Nada de expectativas.
       Mas Reese era honesto. No fazia promessas, e com certeza jamais diria que amava Syd. Contanto que ela no cometesse o grave erro de se apaixonar por ele, 
sobreviveria quando ele decidisse troc-la por outra mulher.
       Ela estremeceu, sentindo um aperto no peito. No desejava pensar naquilo. Virou-se repentinamente e colidiu com Lucian, que tinha desligado o telefone celular. 
Ele a segurou pelo brao e franziu a testa ao olhar para o suter azul dela, sujo de caf. - Voc se queimou? - indagou, preocupado.
       - No, no, estou bem. - Syd pegou uma toalha e limpou-se. - Est tudo bem.
       - Tem certeza? Eu podia ajudar voc, mas com certeza levaria um tapa na cara. - Lucian sorriu. - Mas valeria a pena.
       Rindo, ela meneou a cabea negativamente. Os homens da famlia Sinclair eram cortejadores irremediveis, charmosos e letais. Lucian estava com um olhar carregado 
de malcia e desejo, mas Syd j pusera as mos em outro Sinclair e no o trocaria por ningum.
       Reese escolheu aquele momento para entrar no restaurante. Ao ver o irmo to prximo de Syd, atrs do novo balco, com aquela mo calejada no brao dela, 
sentiu o sangue ferver. E os dois estavam sorrindo um para o outro!
       - Posso saber qual  a graa? - indagou rispidamente, mantendo os olhos em Lucian. - Ou  algo s entre vocs? Assustada, Syd pulou para trs, mas Lucian 
virou-se vagarosamente, ainda sorrindo.
       - Ei, Reese. - O rapaz apoiou-se no balco. - O que conta de novo?
       - Nada.
       Reese olhou para Syd e viu culpa nos olhos azuis, o que o irritou.
       O que ela fez com os cabelos?, indagou-se. Olhou novamente para Lucian.
       - E voc, o que tem para contar? - indagou com aspereza. - Acabei de instalar o balco para Syd. - Lucian levou a xcara de caf aos lbios. - Sou o primeiro 
fregus a tomar caf expresso.
       -  mesmo?
       Reese no desejava que o irmo fosse o primeiro em nada que se relacionasse a Syd, nem qualquer outro homem. No estava gostando de ver Lucian to prximo 
de sua garota.
       - Quer caf? - Syd perguntou e virou-se para a cafeteira. - Fao num minuto.
       - Que tal servir numa xcara de verdade? - Reese replicou. -  pingo de caf que deve haver nesse negocinho que Lucian tem na mo no da nem para molhar a 
lngua.
       Lucian olhou-o de testa franzida. Reese sabia que falar naquele tom irritado perto do irmo era pedir briga. Mas Lucian sorriu e tomou mais um gole de caf. 
Reese pegou a xcara que Syd lhe ofereceu e ficou mais irritado ao perceber que ela evitava encar-lo.
       - Vou passar gua nessa mancha, ou ela nunca mais sair Syd falou, hesitante, olhando para seu suter.
       Reese viu a mancha de caf entre os seios dela, ento percebeu que Lucian olhava para o mesmo lugar. Quando Syd deu a volta no balco, Reese quase se engasgou 
com o caf. Ela usava uma saia preta que no tinha tecido suficiente para ser uni pano de prato. As longas pernas bem torneadas estavam seminuas. Lucian aproveitou 
a chance para admir-las.
       - No diga nada! - Reese alertou, quando Syd j no estava mais no salo.
       - Viu que pernas maravilhosas? - Lucian comentou, soltando um assobio. - Deus do cu, tenha piedade! Acho que estou apaixonado.
       - A menos que queira comer essa pequena xcara que voc segura, no diga mais nada.
       - Esta com cime? Confesse, e estou fora.
       - No estou com cime. Nunca senti isso. Mas toque nela, ou olhe para ela desse jeito, ou pense o que voc esta pensando, e ser um homem morto.
       -Vejam s! - Lucian exclamou, zombeteiro. - Esta atrado por Syd? Ns estvamos imaginando aonde voc vai, quando some e ningum o encontra, nem em casa, 
nem na taverna.
       Reese tinha o direito de ter uma vida particular, no tinha? Aonde ia ou o que fazia no era do interesse de ningum. - Syd e eu... - Ele hesitou, tentando 
pensar nas palavras certas. - Estamos nos entendendo.
       -  mesmo?
       - Gostamos um do outro, gostamos de estar juntos. - Reese tomou um gole de caf. -  isso a.
       - Certo. - Lucian riu. -  por isso que comeou a latir e esbravejar, quando entrou e me viu falando com ela? Voc, gosta de Syd.
       - Gosto.
       - Quando namorei Susie Hutton, e ela estava saindo com voc, voc nem piscou - Lucian lembrou, adorando ver a irritao do irmo. - Ou Mary Walinski. Ela 
largou voc para sair comigo, e voc no se importou. E gostava delas, no?
       - Gostava de um modo diferente. E Mary no me "largou". Eu estava ocupado, e ela ficou entediada esperando meu telefonema. De qualquer maneira, Syd  diferente.        '
       - Diferente do qu? - Syd indagou ao retornar, ainda usando o suter azul e a saia preta.
       Reese precisou controlar-se para no pegar o avental pendurado ao lado do balco para cobrir as pernas dela. Olhou ferozmente para Lucian, como se estivesse 
alertando-o.
       - Ou devo dizer diferente de quem? - ela insistiu, entregando um cheque a Lucian. - Obrigada, Lucian. Os balces ficaram perfeitos.
       - Quando voc quiser, e s me chamar - o rapaz ofereceu charmosamente. -  s telefonar, Syd. Tem o telefone de minha casa?
       Reese sabia muito bem que o irmo s estava provocando-o, mas isso no diminua sua vontade de querer dar um soco nele.
       - No precisarei ligar para sua casa - Syd falou. - Tenho certeza de que poderei encontrar voc, quando precisar.
       - Obrigado pelo caf - Lucian agradeceu e devolveu a xcara para Syd. - Vejo voc depois, Reese.
       Reese limitou-se a menear a cabea afirmativamente e observou o irmo sair do restaurante.
       - 0 que voc quis dizer com eu ser diferente? - Syd perguntou.
       Reese aproximou-se, prendeu-a entre seu corpo e o balco e beijou-a com paixo.
       - Est com gosto de caf e chantilly - murmurou.
       - Pare de tentar desviar minha ateno - ela reclamou, empurrando-o. - Sou diferente, como?
       - Seus cabelos, para comear. Voc os cortou. - Ele conhecia as mulheres o suficiente para no dizer a elas que no gostava de cabelos curtos, mas, no caso 
de Syd, tinha gostado. - Muito sexy.
       - Foi o que Frederico disse - ela falou, radiante.
       - Quem?
       - 0 cabeleireiro.
       - Ah! Achei que teria de bater em cada rapaz da cidade, a comear por Lucian.
       Principalmente Lucian, ele pensou, recordando como o irmo admirara as pernas dela.
       - Reese, Frederico  casado e tem dois filhos. - Ela riu ao ver a expresso de surpresa dele. - E Lucian? Est com cime de seu irmo?
       Cime! Essa palavra de novo, Reese disse a si mesmo. - No. Instinto de proteo - corrigiu.
       - Com relao a mim? - Ela arregalou os olhos. - Por qu? - E por que no? - ele retrucou, irritado, pouco  vontade com o rumo daquela conversa.
       Por que as mulheres gostam de complicar as coisas?, perguntou-se. Elas tm de pegar cada palavra e analis-la minuciosamente?
       - Bem... - Syd pousou o olhar no peito dele e, com a ponta do dedo indicador, circulou um dos botes da camisa. - Estamos dormindo juntos, mas nunca...
       - Pode parar por a. - Reese segurou os braos dela e estreitou os olhos ao fit-la. - No estamos apenas dormindo juntos. Acho que mereo um comentrio melhor 
do que esse, e voc tambm.
       - Tudo bem. Desculpe-me. Ento, o que estamos fazendo? "Oh, diabos", ele pensou. "Quantas perguntas! S quero lev-la para a cama e fazermos amor a tarde 
toda."
       - Ns estamos nos relacionando, Syd. Com exclusividade. Apesar do que deve ter ouvido falar a meu respeito, no fico com uma mulher diferente a cada noite. 
Posso no ser santo, mas tambm no dormi com todas as mulheres com quem sa. Entendeu?
       Ele nunca dera explicaes a uma mulher, e o fato de estar fazendo isso com Syd deixou-o atnito. Estava surpreso e confuso e no entendia por que havia dito 
tudo aquilo.
       - Certo. - Syd acariciou o peito dele. - Gostou do meu novo corte de cabelo?
       - Gostei. E sabe do que mais gostei tambm?
       - Do qu? - perguntou Syd em tom insinuante, dando-lhe um beijo no pescoo. 
       - Da saia.
       - Eu achei, mesmo, que voc ia gostar - ela murmurou, enlaando o pescoo dele com os braos e aconchegando-se contra o corpo musculoso, movimentando os quadris 
de modo sedutor.
       Reese jamais desejara uma mulher como desejava Syd. No entendia sua tamanha necessidade de possu-la, e nem queria entender. Ergueu-a nos braos e levou-a 
at o apartamento, atravs da porta de comunicao com o restaurante. Colocou-a no sof de couro, deitando-se sobre ela.
       - S para que fique registrado, no tenho nenhum interesse em Lucian - Syd informou, enquanto ele lhe tirava a saia. - Syd, no quero falar do meu irmo agora.
       - Tudo bem. - Os olhos azuis dela estavam cheios de desejo. - Vamos conversar sobre o qu? O tempo?
       - Ouvi dizer que uma tempestade de neve vem por a. -. Reese afagou-lhe as coxas macias. - Talvez queira ficar aqui para manter-se aquecida.
       - Talvez eu deva acender a lareira.
       - Eu acendo. Mas vai ser outro tipo de fogo.
       Ele passou o dedo pelo elstico da calcinha de seda. Ela gemeu de prazer. Ele beijou-a na barriga.
       - Reese...
       Syd era a mulher mais bonita e sensual que Reese j conhecera. Ele tirou-lhe a calcinha, arrancou as prprias roupas e iniciou o ritual frentico do amor.
       

     Captulo 10
       
       
       A tempestade de neve chegou, como Reese havia  dito, s que trs dias depois. A neve cobriu a cidade de Bloomfield. Em um outro dia, Syd teria apreciado aquela 
paisagem, calaria botas e daria uma volta pelas ruas da cidade, ou ficaria em casa, sentaria em frente  lareira e tomaria conhaque para aquecer-se, ou leria um 
bom livro. Num outro dia, no naquele.
       Aquele era o grande dia da inaugurao do Le Petit Bistrot. Ela olhava a rua pela janela do restaurante, usando um avental branco. Estava triste. Poucas pessoas 
sairiam  noite, com um tempo como aquele. Somente as que tinham um propsito ou uma necessidade se aventurariam a sair. O povo do condado de Bloomfield no tinha 
o costume de jantar fora, principalmente num restaurante francs, com toalhas de linho rosa e que servia capuccino.
       Ela se virou-se e olhou o salo arrumado com esmero. As velas ofereciam iluminao suave, e msica de Mozart ecoava no ar. O cheiro de alho e ervas estava 
de dar gua na boca. Tudo se encontrava do jeito que ela imaginara, exceto pelos clientes.
       As poucas reservas haviam sido canceladas logo de manh, mas Syd mantivera a esperana de que na ltima hora a neve fosse dar uma trgua, e as pessoas sairiam 
de casa. Como isso no acontecera, ela passou a esperar que as pessoas sassem, mesmo o tempo estando ruim. As ruas ainda estavam transitveis, e a temperatura no 
estava to baixa como nos ltimos dois dias.
       Mas ela abrira o restaurante exatamente vinte e dois minutos antes, e a sineta da porta, anunciando a entrada de algum, no tilintara uma nica vez. Nem 
seu av apareceria. Ele estava preso no aeroporto de Baltimore, por causa do mau tempo, e chegaria  cidade somente no dia seguinte. E Reese tinha seu prprio estabelecimento 
para cuidar e estava com poucos funcionrios. Ele havia falado que apareceria, porm no informara a que horas. Se a taverna estivesse vazia como o restaurante dela, 
provavelmente ele apareceria em uma ou duas horas, porm, com um tempo como aquele, Syd tinha certeza de que as pessoas estariam mais inclinadas a sair para um tomar 
um lanche regado a cerveja, do que para saborear comida francesa.
       Mas haveria outros dias. As pessoas iriam ao restaurante, quando a neve cessasse. Mas, aquele dia, seu primeiro dia, era especial. Uma pessoa sempre recordava 
sua primeira vez de qualquer coisa. Ela deslizou a mo pela toalha de linho rosa da mesa mais prxima e sorriu. Quando pensava em "primeira vez", Reese vinha instantaneamente 
a sua mente.
       Mas ele estava em sua mente quase que o tempo todo. Ela estivera muito ocupada nos ltimos dias, por causa da inaugurao, e o vira muito pouco, exceto por 
duas noites atrs, quando ele telefonara, j bem tarde, apenas para dizer "oi", e acabara indo ao apartamento dela. Tudo porque a conversa cara sobre o que Syd 
estava vestindo, e ela descrevera sua camisola rosa de seda com detalhes de renda. Ento, alguns minutos depois de desligar o telefone, quando se preparava para 
deitar, algum batera na porta. Era Reese. Ele entrou, abraou-a, e fizeram amor ali mesmo, encostados na porta que ele fechara com o p.
       S de pensar na intensidade dos olhos verdes, no. modo como Reese a levantara do cho, fazendo-a envolver sua cintura com as pernas, Syd sentiu o corao 
bater acelerado.
       - Srta. Taylor? H algo que quer que eu faa, enquanto esperamos? J dobrei os guardanapos.
       Syd olhou para Becky e sorriu.
       - Vou mostrar a voc como a cafeteira funciona - respondeu. - Assim, quando eu e Nell estivermos ocupadas com os pedidos, voc poder servir o caf.
       "Espero que isso acontea sempre", pensou.
       - Eu ouvi meu nome? - Nell indagou, abrindo a porta da cozinha e olhando ao redor. - Por favor, digam que chegou um cliente. Lorna fez um pudim que colocar 
qualquer homem a nocaute.
       Syd trabalhara a semana toda ao lado de Lorna, organizando o cardpio e preparando pratos que podiam ser congelados. A maioria era criao de Syd, mas sua 
chefe de cozinha tambm criava receitas deliciosas.
       Ao ouvirem o bimbalhar da sineta da porta da frente, as trs viraram a cabea naquela direo, esperanosas. Era um homem usando o uniforme de uma oficina 
mecnica e um bon. - Algum chamou o socorro-mecnico? - indagou.
       Syd movimentou a cabea negativamente e pensou em arrastar o homem para dentro e for-lo a sentar-se. Ele era muito mais alto e forte, porm ela estava to 
determinada a ter um fregus, que achava que seria capaz de domin-lo. Mas o homem resmungou alguma coisa e saiu, apressado.
       Quinze minutos depois, com a neve ainda caindo, e sem nenhum cliente  vista, Syd ajeitava as toalhas de mesa de linho pela dcima vez, enquanto Becky praticava 
fazer capuccinos, e Nell aprendia algumas receitas com Lorna, na cozinha. A porta do restaurante abriu-se de novo.
       Um cliente! Era Griswald Mantle, que tinha comemorado seu octogsimo aniversrio numa festa na taverna, na semana anterior. A esposa dele falecera no ano 
anterior, e ele passava a maior parte do tempo na taverna.
       Por um momento, Syd achou que talvez ele tivesse se confundido e entrado no restaurante por engano, pois ele fazia mais o tipo de cliente de Reese, mas ele 
seguiu direto para uma mesa, sem esperar que Becky o acompanhasse, entregou a ela o casaco, sentou-se, prendeu o -guardanapo no colarinho da camisa e pediu po.
       Bem, era um comeo. No momento em que Syd se aproximava da mesa dele para dar-lhe as boas-vindas, a porta do restaurante abriu-se novamente. Daquela vez eram 
Margaret e Jimmy Metzer, proprietrios da lavanderia que ficava naquela mesma rua. Syd levou-os at uma mesa, enquanto Nell trazia uma cesta com po para Griswald.
       O restaurante virou um pandemnio cinco minutos depois, quando o cl dos Sinclair-Shawnessey chegou: Carla e Ian, Callan e Abby, Gabe, Melanie e Kevin.
       - Desculpe o atraso - Carla pediu, tirando o cachecol do pescoo e meneando a cabea para tirar os flocos de neve dos cabelos. - O trfego est muito lento. 
Oh, Syd, que lugar lindo!
       - Voc no devia ter vindo com esse tempo. No se esquea de que est grvida - Syd falou, mas estava muito feliz por v-los.
       Enquanto ela pegava os casacos, Becky e Nell apressaram-se em levar-lhes cestinhos de po e copos com gua.
       Lucian apareceu, acompanhado de Louise Wittmeyer, uma bela loira que era gerente de uma loja. Ken e Jan Stockton, criadores de cavalos, entraram no restaurante 
atrs do casal. Nell anotava os pedidos, e Becky ajudava a servir.
       Pela primeira vez na vida, Syd sentiu-se completamente viva. Enquanto caminhava por entre as mesas, observou seus clientes saborearem a comida e sorrirem.
       Ento, Reese apareceu.
       Syd segurou com firmeza a garrafa de vinho que tinha acabado de tirar da pequena adega. Respirou fundo. Reese tinha flocos de neve nos cabelos e nos ombros 
do casaco. Olhou ao redor e viu-a. Sorriu. O corao dela disparou. Mesmo com o restaurante cheio, no meio o barulho das conversas, e Syd tendo a obrigao de atender 
os clientes, subitamente pareceu que no mundo s existiam ela e Reese.
       E de repente, sem mais nem menos, ela descobriu de que o amava. At ento, recusara-se a aceitar a simples idia de am-lo, pois prometera a si mesma que 
conseguiria manter o relacionamento sem permitir que seu corao fosse partido. A nova Syd no estava procurando compromisso. Um homem como Reese apenas se divertia, 
apreciava o momento e a mulher com quem estava.
       Ela concluiu que a nova Syd era to idiota quanto a antiga, pois se apaixonara por um homem que nunca se apaixonaria por ela do jeito que ela desejava, do 
modo como ela precisava. Ou ele seria capaz de am-la?
       O jeito como Reese a olhava naquele momento, como se Syd fosse a mulher mais linda do mundo, a nica mulher ali presente, fez com que ela alimentasse esperanas, 
mesmo sabendo que no devia.
       Reese olhou para Becky, que estava encarando-o como se ele fosse um sorvete gigante que ela adoraria devorar. Ele
       causava 'aquele efeito nas mulheres. Syd sabia disso, pois ela prpria j fora vtima. S que o via como uma grande barra de chocolate.
       Ele tirou o casaco e aproximou-se. Estava lindo, com aquela camisa azul escura, cala jeans nova e gravata. Gravata?
       - Parabns, srta. Taylor - cumprimentou-a. - Le Petit Bistrot  um sucesso.
       Pegou a mo dela e beijou-a. Syd sorriu e afastou os pensamentos perturbadores e de sensatez duvidosa.
       - Pode ficar um pouquinho? - indagou.
       - A taverna estava com pouco movimento, por causa do mau tempo. Resolvi fech-la.
       - Quer dizer que vai ficar? - A noite toda.
       - A noite toda? - Syd ergueu as sobrancelhas com malcia. - Isso exigir um grande esforo, sr. Sinclair. Est preparado? Ele sorriu.
       - Com certeza - respondeu. Ela se arrepiou dos ps  cabea.
       - Vou lhe arranjar um lugar na mesa de sua famlia - disse. - Mas estou ocupada e no terei tempo de lhe dar muita ateno.
       - Pode me dar ateno depois, querida. Na verdade, conto com sua total ateno, mais tarde.
       O brilho malicioso nos olhos dele fez o corao de Syd perder o compasso. Ele deu-lhe uma piscada e juntou-se a sua famlia. "Como ele  sexy", Syd pensou. 
" uma adorvel tentao." - A mesa quatro quer vinho Merlot - Nell falou. - A seis, soda diet, e precisamos levar mais po para a sete.
       Syd voltou a ateno para o trabalho, pegou a garrafa de vinho e o refrigerante e encheu a cesta da mesa sete com po. - Agora posso morrer feliz - Carla 
brincou, satisfeita, mas ainda de olho na ltima fatia de bolo de chocolate com raspinhas de chocolate branco por cima e recheio duplo, que seu marido tinha no prato.
       - Voc ter de comprar roupas maiores, comendo desse jeito - Ian comentou. - No quero que nosso filho sinta-se apertado a dentro.
       Carla ps a mo sobre o ventre e sorriu. 
       - Vejam quem est falando! Voc comeu uma fatia de torta de ma e est na segunda fatia de bolo.
       - No podia ferir os sentimentos de Syd, quando ela me trouxe mais uma fatia de bolo.
       - Ficaremos do tamanho de uma casa, se comermos tanto assim todos os dias - Melanie falou. - No consigo comer nem mais uma garfada.
       - Talvez porque voc no tenha mais comida no prato - Gabe provocou, ento pegou Kevin no colo e afagou-lhe os cabelos.
       - Syd diz que abrir o restaurante para almoo, s quintas e sextas-feiras - Abby disse, ainda comendo seu pedao de bolo. - Por que no voltamos aqui na 
quinta-feira, aps experimentarmos nossos vestidos para o casamento?
       Todas as mulheres concordaram, ento Carla olhou para Reese.
       - A propsito, um dos homens sentados nesta mesa ainda no foi experimentar o terno - comentou.
       Callan, Ian e Gabe olharam para Reese.
       - Segunda-feira - prometeu, relutante, embora j tivesse planejado passar seu dia de folga com Syd.
       Quando as mulheres comearam a falar sobre o casamento, e Gabe, Callan e Ian a discutir o ltimo jogo de futebol, Reese mal conseguia escut-los, enquanto 
olhava ao redor, procurando por Syd. Ele estreitou os olhos ao v-la servindo vinho para Mary Lou e Rhonda, que tinham ido ao restaurante acompanhadas de Emmett 
e Dean Farley, irmos que possuam vinte acres de terra nos arredores da cidade. No gostou da idia de ver Syd servindo quelas duas mulheres. Ela, porm, estava 
sorrindo e conversando com elas como se nada tivesse acontecido. Talvez houvesse esquecido as rudes palavras, ou estava fingindo que esquecera.
       Reese sentiu um aperto no peito ao recordar como ela chorara naquela noite. Preferia andar sobre cacos de vidro a v-la chorando daquele jeito de novo.
       Nunca se preocupara tanto com uma mulher. No sabia o que ela estava fazendo com ele. Quando no estava com Syd, passava horas pensando nela. Quando estava, 
tudo o que conseguia pensar era em fazer amor com ela. Nunca experimentara aquilo com outra mulher. Quando no estavam juntos, ele imaginava o ela estaria fazendo, 
se pensava nele, se esperava ansiosa por seu telefonema.
       Syd estava levando-o  loucura.
       Talvez ele devesse afastar-se, dar um tempo. Assim poderia voltar a pensar com clareza sobre eles, sobre o relacionamento do dois. Observou-a caminhar pelo 
restaurante. A nova Syd era mais meiga, mais simptica. Aquela era a sua noite de brilhar, e ela estava brilhando. A expresso do rosto lindo era de alegria, os 
olhos azuis cintilavam. Reese teve de se esforar muito para no se levantar da cadeira, agarr-la e lev-la para o apartamento, para a cama. Olhou para seu relgio 
e refletiu que ainda teria de esperar umas duas horas antes de poder fazer amor com ela. Mas, quando pudesse t-la em seus braos, aproveitaria cada minuto.
       Ao perceber o rumo de seus pensamentos, pestanejou e voltou a ateno para sua famlia.
       Gabe, Ian e Callan olhavam para ele, sorrindo feito idiotas. - O que foi? - Reese indagou.
       - Ou ele est sofrendo de indigesto, ou est apaixonado - Callan diagnosticou.
       - Concordo - disse Gabe. - Mas, do jeito que ele est olhando para Syd, aposto cinco dlares que est apaixonado. Reese, sorriu impassvel.
       - No contem comigo como scio de seu clube de apaixonados, rapazes -avisou. - Este Sinclair no far parte disso. - Ele foi fisgado - Ian falou.
       - Com certeza - Callan afirmou.
       Aps a deliciosa refeio que saboreara, Reese estava muito relaxado e satisfeito para discutir com algum. Alm do mais, era preciso pacincia para lidar 
com aqueles trs.
       - Somos dois adultos aproveitando a companhia um do outro, s isso - ele explicou.
       - Bem, sabemos que Syd  adulta - Callan disse. - Quem  o outro adulto?
       - Vocs no sabem? - Lucian indagou, acomodando-se na cadeira onde Kevin estivera sentado. - Reese me contou que ele e Syd esto se entendendo.
       Reese franziu a testa e decidiu que Lucian levaria uma surra mais tarde. 
       -Achei que voc tivesse vindo com uma garota - comentou, sarcstico. - Ela j se assustou com sua cara feia?
       - Ela foi ao banheiro, retocar a maquilagem - Lucian respondeu com um amplo sorriso nos lbios. - Vocs, homens casados, com certeza sabem que tipo de entendimento 
ele e Syd tm. Daqui a pouco, veremos alianas... Nossa, no quero saber desse negcio de casamento, de uma mulher mandando em mim!
       - Do que vocs esto falando? - Carla perguntou, franzindo a testa.
       - Lucian estava dando sua opinio sobre casamento - Reese falou. - Tenho certeza de que ele no se importar de repeti-la para vocs.
       As mulheres olharam para Lucian, que era esperto o bastante para saber que aquela era sua hora de desaparecer. - Opa, minha garota est voltando - disse. 
- Vou voltar para minha mesa.
       Feliz, Reese pegou seu copo, tomou um gole de cerveja e olhou para a porta da cozinha, por onde Syd tinha entrado. Os fregueses j estavam saindo, e ele sabia 
que ela fecharia logo. Ele j decidira que a ajudaria a arrumar as coisas para que pudessem comemorar, a sua maneira, a noite de inaugurao do Le Petit Bistrot.
       Por que no comear a comemorao agora?, indagou-se, levantando-se e caminhando na direo da cozinha.
       - Reese Sinclair! Ah, a est voc, seu diabinho. Praguejando, Reese virou-se e viu-se frente a frente com Mary Lou e Rhonda. Procurou esquivar-se, mas as 
duas encurralaram-no. Olhou por sobre o ombro, para sua famlia, esperando que algum fosse ajud-lo, porm todos pareciam muito ocupados, conversando e rindo.
       Inferno!, pensou.
       - Mary Lou, Rhonda - disse. No sorriu, mas a boa educao mandava que no as ignorasse. - Com licena.
       - Quando quiser jogar pquer comigo, querido,  s me telefonar - Mary Lou falou, passando um dedo na gravata dele. - Eu no me importo, se voc trapacear 
para ganhar.
       Reese teve vontade de dar um tapa na mo dela, obrigando-a tirar o dedo de sua gravata.
       -  melhor vocs voltarem para sua mesa - aconselhou. - Emmett e Dean esto esperando.
       Rhonda passou o brao pelo da amiga. - Vamos, Mary Lou - murmurou.
       - Oh, Reese, no finja que no sabe do que estou falando! - Mary Lou insistiu, quase gritando. - Marilyn contou que ouviu voc confessar a Lucian que jogou 
pquer com Syd Taylor, porque seu cachorro destruiu as flores do jardim dela, e que trapaceou para vencer. Queria dar uma lio na esnobe Syd Taylor.
       Reese olhou para a porta da cozinha e ficou feliz por Syd no ter sado de l, ento olhou por cima do ombro e viu Emmett e Dean levantarem-se de suas cadeiras, 
obviamente incomodados com o tom de voz elevado de Mary Lou.
       - Voc est bbada - acusou.
       - O que um homem no faz para levar uma garota para a cama! - Mary Lou exclamou, rindo. - Agora est fazendo caridade, Reese? Tenho certeza de que Syd est 
grata por isso, mas... EU
       Emmett segurou no brao de Mary Lou e praticamente puxou-a para fora do restaurante, enquanto Dean e Rhonda pegavam os casacos. Reese respirou fundo e contou 
at dez para acalmar-se, ento percebeu que todos no restaurante haviam ficado em silncio.
       As poucas pessoas que ainda estavam no restaurante olhavam fixamente para ele, ou melhor, para algum atrs dele. "Oh, Deus, no!", Reese pensou.
       Virou-se e viu Syd atrs do balco, segurando uma garrafa de vinho, muito plida e fitando-o com incredulidade. Ela havia escutado cada palavra de Mary Lou.
       - Voc trapaceou? - murmurou. - S para me dar uma lio?
       Ele entrou em pnico.
       - No, Syd, no foi bem assim. Eu...
       - Me fez trabalhar para voc, descascar aqueles amendoins, me fez crer que...
       - Que coisa, Syd! Deixe-me...
       - No, Reese. - Cuidadosamente, ela pousou a garrafa de vinho no balco. - No vou deixar nada.
       Entrou na cozinha. Reese foi atrs dela, mas Nell impediu-o de entrar, lanando-lhe um olhar acusador.
       Ele decidiu que daria um tempo para Syd acalmar-se. Ela entenderia, quando ele desse as devidas explicaes. As coisas no aconteceram como Mary Lou falara. 
Sentindo-se pouco  vontade, com a quase certeza de que todas as mulheres l presentes estavam com vontade de cravar uma faca nele, at sua prpria irm, decidiu 
ir embora. Pegou seu casaco, vestiu-o e saiu do restaurante sem olhar para trs.
       

     Captulo 11
       
       
       - Dez quilos de camaro... vinte de peixe... cinco de fil...
       Com um lpis na mo, Syd sentou-se na banqueta junto ao balco da cozinha e anotou os itens que Nell ditava para  lista de supermercado, fazendo uma pausa 
aqui e ali para modificar alguma coisa. Abriria o restaurante s onze e meia da manh naquele dia, e ofereceria desconto e mais uma sobremesa grtis para todos os 
empregados do comrcio que fossem almoar no Le Petit Bistrot.
       Seu sonho tinha se tornado realidade.
       Estava no mundo dos negcios havia seis dias, sem contar a segunda-feira, pois nesse dia o restaurante permanecia fechado, e j comeara a fazer sucesso. 
Seus clientes adoravam a comida e o clima do restaurante, sem mencionar os preos razoveis. Muitas pessoas j tinham feito reserva para um jantar, na semana seguinte.
       Devia estar comemorando, danando  luz de velas sobre um dos balces que Lucian instalara, tomando champanhe e rindo.
       Mas s queria chorar.
       No choraria, claro. No chorara uma nica vez, desde que Reese a flagrara nos fundos da taverna chorando feito um beb aps ter ouvido os comentrios cruis 
de Rhonda e Mary Lou, no dia em que preparara o jantar para a festa de Melanie e Gabe. Queria chorar, mas no se permitia. Recusava-se a perder o controle, a deixar 
que seu corao partido a transformasse numa mulher vulnervel que vivia se lamentando pelos cantos. Odiaria a si mesma, e a Reese, se perdesse o controle. Apesar 
do que ele fizera, no o detestava. Seria apenas mais uma mentira, se negasse que o amava e sempre o amaria. No havia retornado os recados que Reese deixara em 
sua secretria eletrnica, e quando ele telefonara para o restaurante, ela fora apenas educada, ento dissera que estava muito ocupada e que ligaria mais tarde, 
porm no ligara.
       Acreditava que, com o tempo, a dor que sentia passaria. J passara por aquela mesma dor por causa de Bobby, quando ele a deixara no altar da igreja. Achara 
que no sofreria, caso seu relacionamento com Reese no desse certo, mas se enganara.
       Ao menos tinha seu pequeno restaurante para mant-la ocupada, distraindo sua mente, assim ela no pensava em Reese a cada minuto do dia e da noite.
       - Seis quilos de peito de frango, cinco quilos de peito de peru, dez potes pequenos de carne de tartaruga...
       - Tartaruga? - Syd indagou, mostrando que estava a quilmetros de distncia.
       Nell cruzou os braos na frente do peito e encostou-se na pia. - Por que no liga para ele? - perguntou.
       - Ligar para quem?
       Syd manteve os olhos na lista e observou-a como se estivesse diante de um problema de lgebra. Nell tirou-lhe o papel das mos.
       - Ele liga e manda flores todos os dias, Syd.
       Syd olhou para o grande vaso com rosas vermelhas que tinham acabado de chegar. Permitiu-se, por um breve momento, apreciar a beleza das flores, ento voltou 
a olhar a lista de compras.
       - Esse vaso vai voltar, como todos os outros - disse com firmeza.
       Um homem finalmente mandava-lhe flores, e ela as estava devolvendo.
       Nell deu de ombros.
       - Talvez voc devesse ouvir o que ele tem a dizer - sugeriu. - Concordo - uma voz masculina apoiou.
       Reese!
       O corao de Syd disparou como louco.
       "Acalme-se", ela se ordenou mentalmente. "Acalme-se." Endireitou os ombros e olhou para Reese.
       Ele estava no vo da porta dos fundos, observando-a com expresso sombria. Syd ficou feliz por ver que as olheiras escuras sob os olhos verdes.
       Sabia que cedo ou tarde teria de encar-lo. Afinal, eles no s moravam e trabalhavam na mesma cidade, como na mesma rua.
       - Boa noite, Reese. - Syd esforou-se para exibir sorriso. - O que posso fazer por voc?
       Reese olhou para Nell, que suspirou, meneou a cabea e caminhou para a porta que levava ao salo.
       - Vou pedir ao supermercado que mande o que est nesta lista, Syd - disse, antes de sair. - Ainda quer a carne de tartaruga?
       - No.
       A moa retirou-se, e Reese aproximou-se de Syd.
        - Voc no me ligou - queixou-se.
       - Peo desculpas. - Precisando manter distncia entre eles tanto quanto precisava de algo para segurar nas mos, ela desceu da banqueta, foi para trs do 
balco e pegou um pote de vidro e um pacote com p de caf. - Estive muito ocupada.
       - Precisamos conversar.
       - Tudo bem. - Syd abriu o pacote e comeou a passar o p de caf para o pote. - Tenho cinco minutos, antes de comear a arrumar o restaurante para o almoo.
       - Mas que inferno, Syd! - Reese passou a mo nos cabelos. - Voc me deve mais do que cinco minutos...
       Ela ergueu as sobrancelhas com ar cnico e olhou com frieza para ele, enquanto tampava o pote.
       -No devemos nada um ao outro, Reese. Ns nos divertimos por uns dias e pronto.
       - Escute, sei que est brava por causa do que Mary Lou disse naquela outra noite. Lamento. Se permitir que eu explique, podemos...
       - Voc... trapaceou, ou no, quando jogamos pquer? Tinha a inteno de me dar uma lio?
       - Mais ou menos, mas...
       - Suponho que voc e seus irmos apostaram sobre quanto tempo eu agentaria trabalhar na taverna. - Syd pegou uma toalha e passou no balco. - Ento, claro, 
com certeza apostaram sobre quanto tempo voc demoraria para me levar para a cama. Voc deve ter apostado todo seu dinheiro nisso. Reese aproximou-se to depressa, 
que ela nem percebeu o movimento dele. Num segundo, ela estava limpando o balco, no seguinte via-se enlaada pelos 'braos fortes, com o corpo pressionado contra 
o dele.
       - No diga isso! - Reese estava com a expresso carregada de raiva. - No diga isso de novo. O que aconteceu entre ns no foi planejado. Posso jurar, se 
voc quiser.
       A raiva dele pegou Syd de surpresa, porm ela se recusou a deixar-se intimidar, ou a baixar suas defesas.
       - Voc tem razo, claro - concedeu. - Que diferena faz, que pessoas como Mary Lou acreditem que tudo aconteceu assim? Que diferena faz, o que as pessoas 
pensam de mim? E da, se elas riem  minha custa?
       J tinha passado por aquilo diversas vezes. Sobreviveria. De alguma maneira, sobreviveria.
       - Alm de pedir desculpas, no sei mais o que dizer - Reese falou. - Diga-me o que devo fazer, Syd, para que voc me perdoe.
       Sabendo que jamais ouviria dele o que desejava ouvir, Syd simplesmente suspirou:
       - Umas flores e um pedido de desculpas no vo fazer com que as coisas entre ns fiquem bem, Reese. Mas quero deixar para trs o que aconteceu entre ns. 
Quero que sejamos amigos.
       - Amigos?! - Pasmo, ele a soltou. - Quer que sejamos amigos?
       - Se voc concordar. - Claro. Amigos, ento.
       - Que bom. - Syd forou-se a sorrir, mesmo sentindo o corao em pedaos. Virou-se e comeou a limpar o balco mais uma vez. - Se me der licena, tenho mil 
coisas a fazer. Sabe como  difcil administrar um restaurante.
       - , eu sei - ele afirmou, virando-se e caminhando na direo da porta.
       - Reese?
       Ele parou e olhou por sobre o ombro.
       - Sua... sua famlia sabe o que aconteceu, quero dizer, no jogo? - ela indagou.
       - S Lucian, e porque adivinhou.
       Syd fechou os olhos e suspirou, aliviada. No sabia o que faria, como os encararia de novo, se todos soubessem o que acontecera e rissem dela. Abriu os olhos, 
meneou a cabea afirmativamente, porm no disse nada. Sentiu a hesitao de Reese, o que a amedrontou. Se ele no fosse embora, ela estava certa de que se jogaria 
nos braos dele.
       Mas, ento, viu-o sair e fechar a porta. Respirou fundo e segurou-se no balco. No achara que pudesse sentir-se mais magoada do que j estava.
       S que mais uma vez, enganara-se. Completamente.
       
       "Um casamento  mais do que uma boa razo para beber bastante", Reese pensou. "E j que o casamento  do meu irmo, melhor ainda. Ningum vai me criticar, 
se eu beber at cair, ou bancar o idiota."
       Franziu a testa, olhou para o copo de cerveja que tinha na mo, e tomou um gole do lquido espumoso, enquanto observava alguns convidados danarem ao som 
de Livin La Vida Loca do porto-riquenho Ricky Martin. Normalmente estaria danando com eles, comemorando, se divertindo, porm naquela noite s queria celebrar com 
uma garrafa de cerveja. Pagaria o preo da bebedeira no dia seguinte, mas, por algumas poucas horas naquela noite, pelo menos, esqueceria a loira de olhos azuis 
e corpo curvilneo que tinha pele de seda e lbios sedutores. Ouviu a msica, comentando consigo mesmo que parecia feita para ele, que vivia uma vida louca.
       "Syd conseguiu me levar  loucura", pensou, tomando outro gole de cerveja. "Me faz acordar no meio da noite, todo enrolado no lenol, abraado ao travesseiro 
e suando. Entrou na minha vida como um furaco, dominando cada um dos meus pensamentos, at eu no conseguir pensar em mais nada a no ser nela. O som de seu riso, 
o perfume da pele aveludada, o contato de seu corpo contra o meu..."
       Apertou o copo de cerveja, cheio de tenso.
       "Pare com isso!", ralhou consigo mesmo. "No consegue nem se embebedar, sem pensar nela?"
       O que mais poderia dizer a Syd? Antes de finalmente aparecer no restaurante dela para tentar conversar, na semana anterior, telefonara diversas vezes e pedira 
desculpas, mandara flores. No sabia mais o que fazer.
       "Umas flores e um pedido de desculpas no vo fazer com que as coisas entre ns fiquem bem", Syd havia dito.
       E, ento, o que faria a situao entre eles melhorar? Reese no ficaria atrs dela, se arrastando, implorando. Esqueceria Syd Taylor.        '
       Tomou mais um gole de cerveja.
       Com certeza esquecerei, disse a si mesmo.
       - O que temos aqui? Algum parece muito solitrio. Reese franziu a testa ao olhar para Lucian e Callan, que tinham acabado de sair da pista de dana. Os irmos 
pegaram duas cadeiras da mesa ao lado da de Reese, que por sua vez pensou em levantar-se e ir embora, porm no adiantaria nada, porque sabia que seria seguido.
       - Ele ainda est apaixonado por Syd - Callan declarou. - No estou apaixonado por ningum - Reese retrucou. Lucian riu.
       - Certo - disse. -  por isso que voc vem trabalhando como louco h duas semanas, que briga com qualquer pessoa que cruze seu caminho.
       - No briguei com ningum - Reese defendeu-se.
       - Ns entendemos, mano. Digo, Syd  uma mulher muito bonita. E ficou ainda mais, depois que cortou os cabelos e comeou a usar saias curtas e blusas decotadas. 
Eu a vi ontem, no correio, e ela estava maravilhosa com...
       - Cale-se, Lucian - Reese ordenou e bateu com o copo na mesa. - Cale a boca.
       - Ela tambm fica muito bonita de vestido preto e sapatos de salto alto - o irmo persistiu, olhando para a porta do salo.
       Reese seguiu seu olhar. Syd.
       O vestido preto que ela usava tinha mangas longas, e a saia ia at os joelhos. As pernas bem torneadas estavam cobertas por meias pretas de seda. Ela prendera 
os cabelos loiros num coque, deixando soltas algumas mechas encaracoladas. Ela parou para falar com Gabe e Melanie, sorrindo ao cumpriment-los pelo casamento. Quando 
Gabe beijou-a, Reese sentiu cime.
       - Uau!
       Reese levou alguns segundos para perceber que fora Lucian que soltara aquela exclamao admirada que definitivamente descrevia Syd muito bem.
       - O que ela est fazendo aqui? - Reese questionou, surpreso com o fato de ainda conseguir falar.
       - Melanie pediu-lhe que viesse - Callan respondeu com um sorriso nos lbios. - Quando as mulheres foram at o restaurante dela para almoar, h uma semana, 
fizeram com que Syd prometesse que viria  festa e ficasse ao menos um pouquinho.
       Ningum tinha comentado aquilo com Reese. Ele fora esquecido pelas mulheres de sua famlia, desde aquele incidente com Mary Lou no Le Petit Bistrot. Carla 
xingara-o diversas vezes por sua estupidez, Melanie e Abby permaneciam caladas, porm seus olhares eram acusadores. Como se Reese precisasse de algum que lhe dissesse 
o quanto fora idiota.
       Lucian pousou na mesa o copo que acabara de encher de cerveja e comeou a se levantar da cadeira.
       - J que no est apaixonado por ela, mano, ento com certeza no se incomodar se eu...
       - D um passo na direo dela, e acabo com voc. Lucian bufou, deu de ombros e sentou-se.
       - Avise-me, se mudar de idia - pediu.
       Mantendo os olhos em Syd, Reese levantou-se e cruzou o salo.
       - Quer danar? - convidou, parando diante dela. - No, obrigada - Syd respondeu. - Eu...
       - Somos amigos, lembra-se? Amigos podem danar. Ignorando a resistncia dela, Reese pegou-a pelo brao e puxou-a para a pista de dana. Agradeceu silenciosamente 
 banda por estar tocando msica lenta. Pressionou o corpo escultural contra o seu e sentiu-o enrijecer.
       - Voc est linda, Syd.
       "E seu perfume est diferente esta noite", ele comentou consigo mesmo. "Uma mistura extica e sexy, que leva um homem  loucura. No que voc precise desse 
perfume para levar um homem  loucura."
       - Obrigada - Syd agradeceu e pousou as mos no peito dele, querendo manter uma certa distncia entre os dois. - Voc tambm est muito bem. Agora, se me der 
licena, preciso... - Como conseguiu deixar o trabalho?
       Reese pensou que, se mantivesse a conversa centrada em trabalho, Syd no fugiria.
       - Contratei uma nova garonete, e a irm de Nell est do frias na cidade. Ela administra uma confeitaria em Nova York e ofereceu-se para ajudar no Le Petit 
Bistrot esta noite.
       Ele estava detestando o tom frio e distante da voz dela. - Aquela mulher com quem Lucian est danando, quem ? - Syd indagou.
       Se ela, mostrando interesse em Lucian, tentava cravar um, faca no peito de Reese, estava conseguindo. Ele voltou sua ateno para onde o irmo se encontrava, 
ento fitou Syd novamente.
       -  Raina, a dama de honra de Melanie - informou.
       - Bem que achei que me era familiar - Syd comentou pensativa. - Ela foi ao meu restaurante, na tera-feira, com Melanie.
       Reese sentiu sua tenso diminuir ao perceber .que ela no estava pensando em Lucian, mas em Raina. Reese conhecera a estonteante loira na noite anterior, 
num jantar que reunir a famlia, porm, s pensando em Syd, nem prestara muita ateno a Raina. De incio, achara que Lucian estava interessado na amiga de Melanie, 
mas, ao ver o modo como Raina o Lucian se evitaram, aps as apresentaes, dissera a si mesmo que se enganara.
       "Pelo jeito rgido como aqueles dois esto danando, e do acordo com a expresso de desgosto deles, parece que ambos prefeririam danar com um assassino do 
que um com o outro" pensou. "Mais tarde vou arreliar Lucian por ter sido rejeitado pela bela loira. Quem ri por ltimo ri melhor, maninho."
       Sorriu, satisfeito com sua idia de vingana. Jan e Carla passaram danando e cumprimentaram Syd, ento apareceran Callan e Abby. Reese queria ficar sozinho 
com Syd, longe daquela gente e dos olhos de sua famlia. Tinha certeza de que ela no queria s sua amizade. Se pudessem conversar, elo seria capaz de faz-la mudar 
de idia. S precisava mant-la
       em seus braos tempo suficiente para faz-la relaxar e lembrar-se de como os dois faziam bem um ao outro.
       "O clima  um assunto neutro", comentou consigo mesmo. "Ela no vai fugir, se conversamos sobre isso."
       - Acho que vai nevar esta noite - falou. - Foi o que ouvi.
       - Talvez amanh tambm.
       - A cidade vai ficar linda, toda branca.
       "Tudo bem, talvez o clima no seja um bom assunto", Reese disse a si mesmo. "Tentarei outra ttica."
       - Boomer machucou a pata, pisando numa tachinha - contou. - Levei-o ao veterinrio.
       Syd pareceu preocupar-se. - Ele est bem? - indagou. - Andou mancando, pedindo simpatia e mais ateno. "Como eu", Reese completou mentalmente.
       - Tenho certeza de que ele ficar bem - Syd falou e sorriu para Melanie e Gabe, que danavam segurando Kevin nos braos. - Eu no sei - Reese duvidou, ento 
acrescentou com duplo sentido: - s vezes, quando algum se fere dessa maneira, pode sofrer conseqncias srias.
       - Boomer  um cachorro duro. Voltar  ativa em breve. - Ele sente saudade de voc. - Reese puxou-a para si e sentiu o corpo esbelto enrijecer novamente. 
-Eu sinto saudade de voc.
       - Reese...
       - Diga o que tenho de fazer, Syd. - Quando ela pousou as mos em seu peito, pronta para empurr-lo, ele entrou em pnico. - Por favor, diga o que devo fazer!
       Syd fitou-o. Reese sentiu o corao saltar, alvoroado. Tinha certeza de que vira algo diferente nos olhos azuis, mas apenas por um milsimo de segundo. De 
repente, os olhos dela mostraram-se frios e distantes outra vez.
       - J dissemos tudo o que tnhamos para dizer, Reese. - Ela soltou-se dos braos dele. - Com licena, preciso me despedir de Melanie e Gabe antes de ir embora.
       A msica voltou a um ritmo rpido. Uma cano de Dana Summer. Syd desapareceu entre os convidados que se sacudiam na pista de dana. Reese comeou a segui-la, 
mas parou. Como a batida da msica, as palavras que ela lhe dissera dias atrs martelavam em sua cabea.
       "Umas flores e um pedido de desculpas no vo fazer com que as coisas entre ns fiquem bem".
       "Mas quero deixar para trs o que aconteceu entre ns e que sejamos amigos".
       "J dissemos tudo o que tnhamos para dizer".
       Com os olhos estreitados e os punhos cerrados, Reese virou-se e voltou para sua cerveja.
       A neve caiu sem cessar durante a noite, e pela manh formava um manto branco sobre a cidade. Da janela de seu quarto, Syd observou o sol surgir por trs das 
rvores da casa de John Gelson. Os galhos das rvores estavam nus; vazios, e era assim que Syd sentia-se.
       Virou-se, riu e meneou a cabea, achando seus pensamentos absurdos. Tinha prometido a si mesma que no pensaria em Reese naquele dia. Havia pensado nele quase 
a noite inteira e, quando finalmente adormecera, sonhara com ele.
       No pretendera ir  festa de casamento de Gabe e Melanie, na noite anterior, mas a noiva, Carla e Abby insistiram tanto, que ela no fora capaz de recusar 
o convite. Achara que seria capaz de evitar Reese, misturar-se com os outros convidados e manter distncia dele, porm ele a pegara desprevenida ao agarr-la e lev-la 
para a pista de dana.
       Quando Reese a abraara, ela tivera de fazer um grande esforo para no se render. Quando ele dissera que sentia saudade, quase o beijara na frente de todo 
mundo.
       Mas Reese no dissera as palavras que Syd precisava ouvir, e jamais diria. O erro tinha sido dela, ao confiar nele, apaixonar-se por ele, por crer que seu 
amor pudesse ser retribudo. Que ele pudesse querer casar-se com ela.
       Pare de sentir pena de si mesma, ordenou-se mentalmente e pegou um roupo. Um pozinho quente com manteiga vai me ajudar a tirar Reese da cabea. Vou assar 
uns dez ou doze, ento preparar uns cem biscoitos com gotas de chocolate, ou...
       Assustou-se ao ouvir a campainha do telefone. Ningum ligava s sete e meia da manh, em um domingo. Com o corao batendo forte, ela olhou para o telefone.
       Podia ser Reese.
       Chegou perto do telefone, estendeu o brao, mas hesitou. No queria conversar com Reese. Esperou, respirou fundo e, quando a secretria eletrnica funcionou, 
ouviu a voz desesperada de Carla.
       - Syd, sou eu, Carla... Por favor, se estiver em casa, atenda ao telefone... Houve um acidente. 
       

     Captulo 12
       
       
       - Syd, fico feliz por voc estar aqui. Carla correu pelo corredor do hospital para abra-la.
       - Como ele est? - Syd indagou, olhando preocupada para a porta do quarto de onde Carla sara.
       - Muitos arranhes e uma concusso. Os mdicos dizem que ele poder voltar para casa daqui a duas horas e que ficar bem em alguns dias. Meu Deus, como ele 
nos assustou! Venha.
       Carla segurou o brao de Syd e puxou-a pelo corredor.
       - Um sorriso seu, e ele ficar animado - prosseguiu. - Est rabugento com todos, desde que o trouxemos para c h uma hora.
       - Acha mesmo que devo entrar? - Syd no queria intrometer-se num assunto de famlia. - Talvez ele no queira companhia, principalmente to cedo, e eu...
       Mas Carla j abrira a porta do quarto e puxara-a para dentro. Callan e Ian estavam ao lado da cama, rindo como se algum tivesse acabado de contar uma piada, 
e Abby meneava a cabea, enquanto enchia um copo com gua.
       Deitado na cama alta, usando uma camisola azul de hospital e com um enorme curativo na testa, estava Lucian.
       Todos ficaram calados, quando perceberam a presena de Syd no quarto. Nervosa, ela olhou para Lucian e arrepiou-se ao ver os hematomas e arranhes que ele 
tinha nos braos e no rosto.
       - Como est se sentindo? - indagou.
       Ele abriu um sorriso, mas a dor que sentia era visvel em seus olhos.
       - Tenho certeza de que um beijo seu far com que eu me sinta melhor - sugeriu.
       Abby revirou os olhos e entregou-lhe o copo com gua, ento aproximou-se de Syd e abraou-a.
       - Foi o que ele disse  enfermeira, h quinze minutos, quando ela espetou-o com uma agulha.
       Syd aproximou-se da cama e beijou Lucian na testa. Ele fechou os olhos e sorriu.
       - Agora posso morrer feliz - falou.
       - Ele disse isso  outra enfermeira, que veio ajeitar o travesseiro dele h poucos minutos - Carla informou com aspereza.
       "Os homens da famlia Sinclair", Syd pensou com um sorriso. "No h uma nica mulher que possa se sentir segura com eles. Eu sei muito bem disso."
       Olhou ao redor, e seu sorriso desapareceu. - Reese no veio? - ela perguntou.
       - Consegui falar com ele apenas h uns dez minutos - Carla disse. - Chegar a qualquer momento.
       Quando no conseguira encontrar Reese em casa, nem na taverna, para contar sobre o acidente de Lucian, Carla telefonara para Syd, achando que talvez ele tivesse 
passado a noite na casa dela. Syd no queria saber onde Carla finalmente encontrara Reese, no desejava saber se ele tinha passado a noite com algum. Ainda sentia-se 
muito fragilizada para imagin-lo com outra mulher, abraando-a, beijando-a, fazendo amor com ela.
       Sentiu o peito apertar-se dolorosamente. No devia estar pensando em Reese naquele momento. Fora ao hospital por Lucian. Segurou a mo dele com carinho.
       - O que aconteceu? - perguntou.
       - Nem imagino - respondeu. - A ltima coisa de que me lembro  de estar na festa de casamento de Gabe e Melanie. Da, acordei nesta cama de hospital, com 
uma bruta dor de cabea.
       - Ele foi encontrado na rua Jordan, inconsciente, ao lado da caminhonete - Ian falou. - Parece que perdeu o controle do carro por causa da pista escorregadia, 
subiu na calada e foi arremessado para fora do veculo.
       - O que ele estava fazendo na rua Jordan, s seis e meia da manh, permanece um mistrio - Carla comentou, cruzando os braos e tentando olhar para o irmo 
com frieza e repreenso, mas sua preocupao era visvel, assim como o alvio por ver que ele estava bem.
       - Gabe e Melanie sabem do acidente? Carla negou com um gesto de cabea.
       - Eles saram da festa e foram direto para o aeroporto, em Filadlfia. Agora devem estar tomando o caf da manh na praia.
       - Com certeza - Callan murmurou e olhou para os outros dois homens na sala.
       Carla revirou os olhos.
       - Est bem, eles esto tomando o caf da manh no quarto deles - disse. - J que Lucian est bem, decidimos no contar a eles at voltarem para casa, daqui 
a duas semanas.
       - Gabe no vai gostar, se no contarmos.
       Todos viraram-se para a porta ao ouvirem a voz de Reese. Ao v-lo, Syd sentiu a boca secar. Ele ainda usava o mesmo terno que usara na festa de casamento, 
estava com os cabelos desalinhados e com a barba por fazer.
       Parece que no passou a noite em casa, Syd pensou, enquanto pensava no que fazer em seguida.
       Sentindo que ele a olhava fixamente, encarou-o. Reese olhava para sua mo pousada na de Lucian. Notou que ele no gostara de ver aquele gesto. No entanto, 
ao aproximar-se da cama, ele deu total ateno ao irmo. Ela tirou a mo de cima da de Lucian e afastou-se.
       - Como est? - Reese indagou ao irmo.
       - Tenho belas enfermeiras para cuidar de mim e mulheres bonitas ao redor de minha cama - Lucian respondeu. - Talvez eu morra e v para o paraso.
       Reese franziu a testa.
       - Isso no  nada engraado, mano - retrucou. - Vi sua caminhonete sendo guinchada. Est to bonita quanto sua cara neste momento.
       - Que inferno! Eu gostava daquela caminhonete.
       A conversa continuou, e Syd abriu a porta do quarto e saiu. Andando pelo corredor, lutava para no sair correndo. Suas emoes estavam em turbilho. Reese 
no passara a' noite em casa. Era bvio. Poderia ter sido ele a ser encontrado incons
       ciente ao lado de sua caminhonete. Talvez no tivesse a mesma sorte que Lucian. Quando Reese entrara no quarto, Syd quisera jogar-se nos braos dele, beij-lo 
nos lbios e dizer que o amava. "Ainda bem que consegui me controlar", pensou.
       - Syd! Espere.
       Syd parou ao ouvir a voz de Carla e virou-se.
       - Venha tomar um ch comigo - a moa pediu. - Depois de toda essa agitao, meu filho e eu precisamos nos acalmar. - Sorriu e ps a mo na altura do estmago. 
Quando viu Syd hesitar, segurou-a pelo brao. - Por favor.
       Elas foram  lanchonete do hospital, sentaram-se a uma mesa e pediram duas xcaras de ch. Carla olhou por alguns segundos para sua xcara, ento falou:
       - Sabe que ele ama voc, no sabe? Syd fitou-a.
       - O qu? - indagou.
       Carla tomou um gole do ch.
       - Os homens conseguem ser to... bem, homens - comentou. - Querem acreditar que so criaturas dominantes e que ningum pode control-los, ento batem no peito 
e pulam feito macacos. Mas quando vem que agiram ridiculamente, ficam como filhotinhos de cachorro, querendo ateno.
       Syd no via Reese como um macaco ou um filhotinho de cachorro.
       - Voc est errada, Carla. Ele no me ama. O que tivemos foi... - Syd hesitou e sentiu lgrimas nos olhos. - Sexo, s sexo.
       - No brinque consigo mesma, Syd. Nunca vi meu irmo olhar para uma mulher como ele olha para voc. E, acredite, j o vi olhando para muitas mulheres.
       Syd forou um sorriso.
       - Isso  para eu me sentir melhor?. Carla riu.
       - No  segredo que Reese namorou muitas mulheres - disse. - Mas nenhum relacionamento dele foi srio. E nunca, mas nunca mesmo, ele sentiu cime. De acordo 
com Lucian, Reese quase arrancou a cabea dele, quando viu vocs dois sozinhos no bistr. E, nas ltimas duas semanas, Reese Sinclair Parece um urso selvagem. Na 
minha opinio, o que vocs tiveram no foi apenas sexo.
       Inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. - H algo mais - continuou. - Mas ele me mataria, se soubesse que estamos tendo esta conversa. Na 
noite da inaugurao de seu restaurante, a taverna estava cheia. Ele mandou todos para o seu restaurante, dizendo que o aquecedor central da taverna estava com defeito 
e eles que deviam experimentar sua comida. Acredite, no h outra mulher no mundo por quem Reese faria isso.
       - Ele fez o qu?
       Syd arregalou os olhos.
       - Ele acha que ningum sabe - Carla falou, tomando mais um gole do ch. - Mas eu suspeitei e fui checar a histria dele. O aquecedor estava funcionando perfeitamente 
bem.
       Reese tinha feito o qu? Pensando bem, clientes do tipo inesperado haviam aparecido em seu restaurante naquela noite, porm ela estava to feliz, que nem 
se perguntara o motivo.
       Levou a mo  testa. No queria pensar, no desejava acreditar no relato de Carla. Era possvel que o aquecedor simplesmente tivesse voltado a funcionar. 
Talvez Corky, ou outra pessoa, houvesse consertado o aparelho. Carla podia estar enganada.
       Syd no conseguia crer que Reese estivesse apaixonado por ela. Queria acreditar, mas no conseguia. No podia arriscar-se a crer que ele a amava, para ento 
descobrir que era mentira e sofrer ainda mais.
       - Carla... - Syd suspirou e movimentou a cabea negativamente. - Obrigada. Sei que est tentando ajudar, mas as coisas entre mim e Reese no vo dar certo. 
Ns tivemos um... Passamos um tempo juntos, mas somos pessoas totalmente diferentes.
       - Acredita mesmo nisso?
       - Ele seguir o caminho dele, e eu seguirei o meu - declarou. -  melhor assim.
       - Tudo bem, Syd. - Carla deu de ombros e prendeu uma mecha de cabelos atrs da orelha. - Bem,  melhor eu ir ver Lucian. Graas a Deus, a famlia toda tem 
cabea dura. - Levantou-se. - Foi o que o salvou.
       Syd ficou olhando para sua xcara de ch durante muito tempo, depois de Carla ir embora. No estava com vontade de assar pezinhos, ou biscoitos com gotas 
de chocolate, mas tinha
       de preparar as sobremesas para servir no restaurante naquela noite, e as mesas precisavam ser arrumadas.
       Levantou-se, ajeitou seu casaco e saiu da lanchonete.
       - Esta noite temos peixe grelhado com batatas e salada de feijo branco, fil mignon grelhado com batatas assadas na manteiga...
       Syd recitava os especiais do dia para Max e Eileen Brenner, que tinham ido ao restaurante trs vezes, desde a inaugurao. Em apenas duas semanas, muitos 
clientes j haviam jantado no Le Petit Bistrot mais de uma vez, sem falar nos clientes que tinham se tornado costumeiros na hora do almoo: algumas senhoras da 
alta sociedade da cidade, homens de negcios e mulheres de carreira que queriam impressionar seus clientes com algo mais do que sanduches e saladas.
       At o av de Syd tinha dito que ela estava realizando um excelente trabalho, embora achasse que ela errara na escolha da profisso. Naquela noite, ele estava 
no restaurante com um grupo de advogados de Ridgeway e as esposas deles, e Syd ouviu-o falar ao grupo de sua decepo quanto  carreira escolhida pela neta.
       Ela quis trancar-se em seu quarto e chorar.
       Estava grata por ter muitos clientes naquela noite, o que a mantinha ocupada. Trabalhar era a nica coisa que mantinha seus pensamentos longe de Reese e do 
que Carla havia dito naquela manh, no hospital.
       "Ele ama voc".
       No, Reese no a amava. Apesar do que Carla dissera, Syd estava certa de que o relacionamento deles fora puramente fsico. E ela queria mais do que isso. 
Um solteiro feliz como Reese Sinclair no resolvia assumir um compromisso srio da noite para o dia, como a esnobe neta do honorvel juiz Randolph Howland.
       Syd preferia pensar que tinha se tornado uma pessoa menos calculista e que no levava tudo a srio o tempo todo, porm basicamente era a mesma pessoa de sempre. 
Fosse l com quem se casasse um dia, essa pessoa teria de am-la do jeito que ela era, com todos os seus defeitos.
       - Fiz ravili de alcachofra, pensando em vocs dois - Syd dizia a Max e Eileen, quando percebeu a entrada de Carla e Abby no restaurante. - Vou mandar que 
algum traga um pouco para vocs experimentarem, por conta da casa, enquanto escolhem seus pratos.
       Pediu licena e foi se encontrar com Abby e Carla, que tinham acenado para ela e sentado numa mesa que Syd chamava de "ltima escolha", no s por que proporcionava 
uma viso direta da cozinha, mas tambm porque havia um passa passa de funcionrios a todo o momento. Syd perguntou-lhes se no queriam trocar de mesa, mas elas 
disseram que estavam bem ali.
       - Como est Lucian? - Syd indagou.
       - Eles o mandaram para casa ao meio-dia - Carla respondeu com um sorriso nos lbios. - Provavelmente para impedi-lo de atacar as enfermeiras. J que o vi 
flertando com uma morena, tenho a sensao de que ele ter cuidados especiais em casa.
       - Ian e Callan viro daqui a pouco - Abby informou e abriu o guardanapo no colo. - Antes de eles chegarem, esperamos poder conversar com voc.
       - Bem...
       Syd olhou ao redor do restaurante. Becky estava perto da porta de entrada, e Nell e a nova garonete, Susan, pareciam ter tudo sob controle. Nos ltimos vinte 
minutos, Syd mantivera-se ocupada conversando com os clientes e servindo drinques, porm Nell tinha lhe assegurado, por diversas vezes, que tudo estava bem na cozinha, 
e que sua presena l no era necessria.
       - Tenho alguns minutos -- Syd concedeu, sentando-se  mesa, subitamente nervosa com o que as duas mulheres teriam para lhe dizer. - Mas terei de ajudar a 
servir, quando os pedidos ficarem prontos.
       - No vai ser demorado - Carla garantiu. - Precisamos conversar com voc a respeito de Reese.
       - Carla, Abby, isto no ...
       -  srio - Abby murmurou. - Ele est ficando louco. - Louco? - Syd repetiu, pestanejando. - Como assim? - Est chegando no limite - Carla falou. - Achamos 
que ele precisa se acalmar, antes que se machuque. - Isso  ridculo.
       Syd riu, ento franziu a testa ao ver as duas mulheres fitando-a com seriedade.
       Aquilo era absurdo. Ela meneou a cabea negativamente, ento gelou, quando Reese abriu a porta do restaurante e entrou. Estava lindo, usando terno.
       - Desculpe o atraso, Syd - ele pediu ao aproximar-se dela. - Atraso?
       Syd no tinha idia do que ele estava falando, muito menos por que ele usava terno.
       Reese olhou para Carla e Abby.
       - Boa noite, senhoras - cumprimentou-as. - O que posso oferecer a vocs? Um copo de vinho?
       "O que est acontecendo aqui?", Syd perguntou-se, pasma. - Quero sidra, e Abby, vinho - Carla respondeu.
       Reese tirou do bolso da cala um bloco de anotaes e uma caneta e anotou o pedido.
       - Algo mais? - indagou. - Temos um delicioso quiche de queijo esta noite.
       - Por enquanto, s as bebidas - Carla respondeu e pegou o cardpio para folhe-lo.
       - Tudo bem.
       Reese virou-se e fez meno de ir para outra mesa, mas Syd segurou-o pelo brao.
       - O que acha que est fazendo? - ela questionou por entre os dentes.
       "Ele est louco", pensou. "Carla e Abby tm razo."
       - No foi essa a nossa aposta? - ele indagou. - Eu devia usar terno, anotar pedidos e fazer quiche se perdesse o jogo. - Reese, isso no tem graa!
       - Acho hilariante - Carla murmurou atrs deles, porm Reese apenas franziu a testa ao ouvir o comentrio da irm. - No quero ser engraado - ele declarou, 
- Voc devia ter ganhado aquele jogo, Syd. Eu trapaceei para lhe dar uma lio e perdi o controle da situao. Desculpe-me. Agora estou cumprindo minha parte da 
aposta. O que  certo  certo.
       A determinao nos olhos verdes dizia a Syd que Reese no iria desistir, e ela no queria confuso em seu restaurante. Quando Reese virou-se e foi atender 
outros clientes, ela apenas o observou, incrdula.
       Callan e Ian entraram e olharam espantados para Reese.
       Syd notou que Ian teve vontade de rir, mas que se conteve. Ento, os dois juntaram-se a suas esposas.
       - Devo estar sonhando - Syd murmurou. - S pode ser um desses sonhos que no fazem o mnimo sentido.
       No havia outra explicao para aquele bizarro comportamento da famlia Sinclair. Com certeza acordaria a qualquer minuto, ofegante, com o corao disparado, 
as mos suando.
       Mas estava acordada, embora o corao batesse acelerado, as mos suassem e o sangue parecesse em ponto de ebulio. Percebeu que todos no restaurante olhavam-na 
com ar de expectativa, como se algo estivesse para acontecer.
       "Bem, tenho um restaurante para administrar", pensou ao olhar para a cozinha e lembrar-se de que a porta no se abria fazia algum tempo. "A ltima coisa de 
que preciso agora  um problema na cozinha."
       No tinha tempo para ficar ali brincando com Reese. Foi para a cozinha. Se ele queria servir mesas, por ela tudo bem, mas aquilo no iria mudar as coisas 
entre eles. Quando empurrou a porta da cozinha, no conseguiu abri-la. Perguntando-se o que mais poderia dar errado naquela noite, empurrou a porta com fora e finalmente 
abriu-a.
       Rosas. Dzias, centenas, milhares de rosas rolaram para fora. Pasma, Syd deu um passo para trs, mas pisou numa rosa, escorregou e caiu. Quando o rio de rosas 
parou, ela olhou para Reese.
       - Voc... voc... - Ela pegou um punhado de rosas e atirou nele. - Voc  louco!
       - Com certeza - ele respondeu, ajoelhando-se ao lado dela. - Carla tem razo. Voc precisa acalmar-se.
       - Tudo bem. Eu me acalmarei, se voc permitir. - Permitir, o qu?
       Syd tirou uma mecha de cabelos dos olhos, sabendo que todos a observavam.
       - Que eu me acalme - Reese falou. - S posso me acalmar com voc, Syd. S com voc.
       Syd petrificou-se ao v-lo tirar do bolso da cala uma caixa de veludo preta, que entregou a ela. Com mos trmulas, abriu a caixinha.
       Um lindo diamante solitrio brilhou na claridade suave. - Quer se casar comigo? - Reese perguntou na frente de
       todos no salo, incluindo os funcionrios de Syd, que tinham parado de trabalhar para ver o espetculo.
       At Lorna estava l, com chapu de cozinheira e esptula na mo.
       Quando Syd no respondeu, Reese sentiu um aperto no corao. Pensou que a tinha perdido para sempre. Estava pisando num terreno desconhecido, mas deixou-se 
guiar pelo instinto e pelo amor.
       - Amo tudo em voc, Syd - murmurou. - O modo como seus olhos se iluminam quando voc sorri, o som de seu riso, seu entusiasmo pela vida e...
       Fez uma pausa, olhou ao redor e refletiu que no podia mencionar os momentos de amor que haviam tido. No na frente de toda aquela gente, especialmente do 
av de Syd, que o observava com grande intensidade naquele momento. Estremeceu e voltou sua ateno para Syd.
       - Amo at o jeito esnobe como voc ergue o queixo para mim, quando acha que sabe mais do que eu - declarou.
       - Eu sei mais do que voc - ela disse, mas no havia desafio em sua voz.
       Ainda olhava para o anel, boquiaberta.
       - Ento sabe que te amo, que preciso de voc mais do que do ar que respiro - Reese falou, tirou o anel da caixa, segurou a mo direita dela e deslizou o solitrio 
pelo dedo anular. - Por favor, case comigo, Syd. Por favor.
       Ela o fitou com lgrimas nos olhos.
       - Eu caso - murmurou. - Caso com voc.
       Ento, abraou-o. As pessoas no restaurante bateram palmas, assobiaram, bateram os talheres nos pratos. Erguendo Syd nos braos, Reese beijou-a.
       - Diga que me ama tambm - sussurrou contra os lbios dela. - Preciso ouvir.
       Syd passou os braos ao redor do pescoo dele. - Claro que te amo, seu bobo - declarou. Ele sorriu.
       - Ah, as palavras que todo o homem gosta de ouvir, assim como "o jantar est pronto" - disse.
       Sorrindo, ela beijou-o na boca.
       - Eu te amo - repetiu. - Isso me amedronta, mas eu te amo. Do fundo do meu corao.
       Reese nunca se sentira to completo, em toda sua vida. Queria rir, sair para a rua, danar na neve, fazer amor com Syd a noite toda. Beijou-a de novo, comentando 
consigo mesmo que viver o resto de sua vida ao lado dela no seria suficiente. Lutara contra seus sentimentos desde a primeira noite em que ela entrara na taverna, 
suja de lama e com Boomer no colo.
       - Ns tomamos conta de tudo por aqui - Nell afirmou, e os outros funcionrios concordaram. - Por que vocs dois no vo comemorar?
       Todo mundo tornou a aplaudir. Reese olhou para Syd, que sorriu e meneou a cabea num gesto afirmativo. Ele, ento, carregou-a at a porta do apartamento dela 
e colocou-a no cho. Syd abriu a porta, entraram e trancaram-se l dentro. Reese conduziu-a at o sof, onde se deitaram, beijando-se com verdadeiro furor. Por fim, 
ele interrompeu o beijo com um suspiro de felicidade. Sabia que ela era tudo o que ele precisava, tudo o que sempre quisera.
       - Sabe que, amanh cedo, todos dessa cidade estaro falando de ns, no sabe? - murmurou.
       - Deixe que falem - ela respondeu, fitando-o nos olhos. - Contanto que voc me ame, nada poder me magoar de novo.
       Tocou-o numa das faces, Reese virou o rosto e beijou-lhe a palma da mo.        '
       - Conte como conseguiu levar todas aquelas rosas para dentro da cozinha sem eu perceber - ela pediu.
       -  segredo. Talvez daqui a uns cinqenta ou sessenta anos eu conte.
       Sorrindo, ela empurrou-o gentilmente, levantou-se do sof e caminhou pra o quarto.
       - Aposto que vai me contar agora - declarou.
       - Querida, essa  uma aposta que vou perder, com toda a certeza.
       
Fim.
Sabrina 1205        A APOSTA        Barbara McCauley





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PROJETO REVISORAS         
